Temas atualizados pela SBP · Comparativo com instituições de referência

Dimensão espiritual no adoecimento pediátrico

DC SBP nº 38 (07/04/2026) comparado com AAP, NICE, Together for Short Lives, Espanha (SNS/SECPAL), Itália (Trieste/SICP), Harvard (Balboni) e Johns Hopkins.

Resumo com convergências e divergências entre a atualização da Sociedade Brasileira de Pediatria e AAP, NICE, AEP, Sociedade Italiana de Pediatria, Harvard (Boston Children's) e Johns Hopkins Children's Center. Documento original da SBP (acervo, associados) · 📄 Baixar em PDF

Em resumo

O DC nº 38 sustenta que a espiritualidade é dimensão estruturante — não periférica — do adoecimento grave da criança e da família, e que abordá-la é dever ético do pediatra. Reúne a definição da EAPC, a evidência sobre como pais usam fé e esperança para enfrentar decisões (sem que isso signifique negação), os estágios de compreensão da morte e de desenvolvimento da fé, os sinais de sofrimento espiritual na criança e os instrumentos de história espiritual para adultos (FICA, SPIRIT, HOPE, BELIEF), além da Children's Hope Scale. As referências internacionais concordam com toda a base conceitual, que aliás vem delas. A diferença é operacional: os consensos de Puchalski e de Harvard (JAMA 2022) definem três níveis de avaliação (triagem pela enfermagem, história pelo clínico, avaliação formal pelo capelão certificado) com registro em prontuário; a AAP, o SNS espanhol e Johns Hopkins colocam o capelão como membro formal da equipe de cuidados paliativos; a SBP recomenda capacitação e capelania "quando desejada", sem dizer quem avalia, quando ou como registrar. Instrumento pediátrico validado não existe em nenhuma referência.

1.O que a SBP recomenda

Documento: DC nº 38, 07/04/2026, 11 p. Departamento Científico de Medicina da Dor e Cuidados Paliativos (pres. Simone Brasil de Oliveira Iglesias; sec. Neulanio Francisco de Oliveira).

Eixo Conteúdo
Definições OMS: cuidados paliativos pediátricos = cuidado ativo e integral do corpo, mente e espírito, desde o diagnóstico, incluindo o luto; EAPC: espiritualidade = dimensão dinâmica de significado, propósito e transcendência, e de conexão consigo, com os outros, com a natureza e com o sagrado; distinta de religiosidade
Evidência Pais usam religião, espiritualidade ou filosofia de vida como recurso central (Hexem 2011); cinco dimensões da espiritualidade parental (Engel 2023); a espiritualidade influencia mais o modo de decidir do que o conteúdo (Carroll 2012); esperança coexiste com consciência prognóstica (Kaye 2020); três modelos de uso da fé na decisão — confrontar sem perder esperança, adiar a aceitação, fundamento de confiança (Superdock 2018); "regoaling" (Hill 2014)
Criança Compreensão da morte por idade (irreversibilidade só a partir dos 5–7 anos; universalidade dos 7–13; plena ≥ 14, com conflitos de autonomia); estágios de fé de Fowler; sofrimento espiritual expresso em choro, insônia, pesadelos, silêncio, regressão, desenhos e brincadeiras; exemplos de frases ("Morrer dói?", "todos vão se esquecer de mim", "Por que Deus me deixou ter câncer?")
Instrumentos FICA, SPIRIT, HOPE, BELIEF (adultos, aplicáveis a adolescentes e pais); Children's Hope Scale (8–16 anos); perguntas abertas; avaliação progressiva, multidimensional e longitudinal (Foster 2012)
Abordagem Escuta aberta, respeito às crenças, suporte espiritual (capelania) quando desejado, validação da coexistência entre esperança e realismo; recomenda capacitação dos profissionais
Conclusão Integrar espiritualidade não é promover religião; é compromisso ético com o cuidado integral

Não traz: quem avalia e em que momento; registro em prontuário; capelão como membro da equipe; currículo de formação; evidência de intervenções; abordagem de famílias não religiosas; limites éticos (proselitismo); espiritualidade e desgaste da equipe.

2.Posição das referências internacionais

Referência Documento e ano Posição resumida
AAP Pediatric Palliative Care and Hospice Care Commitments, Guidelines, and Recommendations (Policy Statement 2013); Guidance for Pediatric End-of-Life Care (Clinical Report 2022) Equipe madura de CPP deve incluir capelães/provedores de cuidado espiritual como membros centrais, ao lado de médicos, enfermagem, serviço social, child life e luto; suporte espiritual ao longo de toda a trajetória; competências em dimensões psicológicas e espirituais devem integrar graduação, residência e provas de board. 2022: o pediatra do medical home deve conhecer as dimensões médica, emocional e espiritual do morrer. Sem instrumento de triagem.
NICE / Reino Unido NG61 — End of life care for infants, children and young people (2016/2019); Together for Short Lives — Standards Framework (2015) e Guide to Children's Palliative Care (2018) NG61: perguntar se criança e pais querem discutir crenças e valores e considerá-los em todas as decisões (1.2.11); em desacordo, envolver a capelania ou outro facilitador; valores religiosos/espirituais no local de morte (1.2.15); suporte espiritual como intervenção não farmacológica para agitação (1.3.3); a equipe especializada inclui expertise em suporte social, emocional, psicológico e espiritual. TfSL: toda criança e família deve receber suporte espiritual do diagnóstico ao luto; avaliação holística multiprofissional. Sem instrumento formal.
Espanha (SNS / SECPAL) Cuidados Paliativos Pediátricos en el SNS: Criterios de Atención (2014); SECPAL — Cuestionario GES A equipe de CPP deve contar com pediatra, enfermagem, psicologia, trabalho social e "experto o consejero espiritual"; necessidades espirituais e culturais integram a atenção integral; formação interdisciplinar inclui o especialista espiritual. SECPAL: questionário GES (8 itens, intra/inter/transpessoal), validado em adultos.
Itália (Lei 38/2010, Carta de Trieste, SICP) Carta di Trieste — direitos da criança em fim de vida (Fondazione Maruzza); SICP — Core Curriculum Assistenza Spirituale (2019/2022) Carta de Trieste, direito 6: ter crenças respeitadas e receber cuidado espiritual conforme os próprios desejos, com dever de conhecer e apoiar necessidades espirituais e permitir rituais; SICP: assistência espiritual é prática transversal e interdisciplinar de todo operador, com formação graduada (currículo próprio). Lei 38/2010 define cuidado "ativo e total" sem citar a esfera espiritual.
Harvard Balboni TA et al. — Spirituality in Serious Illness and Health (JAMA 2022; Harvard Initiative on Health, Religion and Spirituality); Puchalski C et al. — consensos 2009 e 2014 História espiritual como rotina na admissão; modelo generalista (todo clínico) / especialista (capelão certificado); incorporar capelães à equipe; educação para equipes interdisciplinares; incluir não religiosos. Puchalski: três níveis — triagem (enfermagem/serviço social, 2 perguntas), história (clínico; FICA, SPIRIT, HOPE) e avaliação formal (capelão, ≥ 1.600 h de CPE); registro em prontuário e discussão em rounds. Boston Children's oferece consultoria espiritual multiconfessional (programa PACT).
Johns Hopkins Children's Center Pediatric Palliative Care — Our Team A equipe lista duas capelãs certificadas (uma de UTIN/perinatal, uma pediátrica) como membros formais; sem posição escrita sobre instrumentos.
EAPC / GO-PPaCS / OMS EAPC Spiritual Care Reference Group; White Paper on spiritual care education (2020); GO-PPaCS 2022 — standards (Benini et al.); OMS 2018 EAPC: a definição adotada pela SBP; educação em cuidado espiritual para todos os profissionais, com autorreflexão obrigatória. GO-PPaCS (sucessor do IMPaCCT): suporte espiritual a toda criança que deseje; serviços espirituais/religiosos antes e após a morte; formação em questões psicológicas e espirituais nos três níveis; não exige capelão nem instrumento.

3.Concordâncias e discordâncias

Tema SBP AAP NICE/TfSL Espanha Itália Harvard/Puchalski J. Hopkins GO-PPaCS/EAPC Leitura
Espiritualidade como componente obrigatório desde o diagnóstico Sim Sim Sim Sim Sim (Trieste) Sim Sim Sim Concordância total
Definição EAPC; espiritualidade ≠ religião Sim Sim Sim Concordância
Instrumentos de história espiritual (FICA/HOPE/SPIRIT) Sim (adultos/pais) Não indica Não indica GES Sim (origem) Não indica Concordância SBP–Puchalski
Quem avalia e em que nível Não define Qualquer membro Todo operador 3 níveis Lacuna da SBP
História espiritual rotineira na admissão Não Perguntar se querem discutir Sim Divergência
Registro em prontuário Não Obrigatório Lacuna
Capelão como membro formal da equipe "Quando desejado" Membro central Facilitador Membro Especialista Membro (2 capelãs) Não exige Divergência
Formação estruturada "Capacitação" Currículo e board Interdisciplinar Currículo próprio Sim Sim, com autorreflexão SBP menos específica
Famílias não religiosas / mediação cultural Não Trieste Sim (2024) Lacuna
Instrumento pediátrico validado Children's Hope Scale (esperança) Nenhum Nenhum Nenhum Nenhum Nenhum Nenhum Nenhum Lacuna compartilhada

4.Síntese

Não há desacordo doutrinário: a SBP construiu o documento sobre a definição da EAPC, os consensos de Puchalski e a literatura norte-americana de cuidados paliativos pediátricos, e todas as referências afirmam que o cuidado espiritual começa no diagnóstico e integra o cuidado de qualidade. O que falta é a passagem da doutrina à rotina. Os consensos de Puchalski e o documento de Harvard no JAMA descrevem um sistema: triagem breve por enfermagem ou serviço social, história espiritual pelo clínico com FICA ou HOPE, avaliação formal por capelão certificado quando há sofrimento espiritual, tudo registrado em prontuário e discutido em rounds. A AAP, o Sistema Nacional de Saúde espanhol e Johns Hopkins vão além e definem o capelão como membro da equipe de cuidados paliativos, não como recurso externo acionado "quando desejado". A SBP descreve as ferramentas, mas não diz quem as usa, quando, nem como o resultado entra no plano de cuidado. A formação também é tratada de modo genérico, enquanto SICP e EAPC publicaram currículos. A lacuna que todos compartilham é a ausência de instrumento pediátrico validado: a Children's Hope Scale mede esperança, não espiritualidade, e as perguntas abertas continuam sendo o melhor recurso para a criança.

Observações críticas
  1. Rotina mínima factível (Puchalski/Balboni): duas perguntas de triagem na admissão ("A fé ou a espiritualidade são importantes para você/sua família?"; "Há algo nessa área que gostaria que a equipe soubesse?"), história espiritual com FICA ou HOPE pelo pediatra quando a triagem é positiva, e encaminhamento ao capelão ou líder espiritual da família quando há sofrimento espiritual — com registro no prontuário.
  2. Capelania pediátrica: nos serviços brasileiros de cuidados paliativos que não contam com capelão, mapear os recursos da comunidade da família e da instituição (serviço de capelania hospitalar, voluntários formados) e prever isso no plano de cuidados, como fazem NICE e TfSL.
  3. Esperança não é negação: a coexistência de esperança e consciência prognóstica (Kaye 2020) deve ser explicitamente respeitada nas conversas de metas; "regoaling" é ferramenta, não pressão.
  4. Famílias sem religião: o cuidado espiritual inclui sentido, propósito e conexão; evitar linguagem religiosa presumida e assegurar acesso a suporte humanista, conforme a Carta de Trieste.
  5. A criança fala por desenhos e brincadeiras: os exemplos de frases do documento são úteis como repertório de escuta; envolver child life, psicologia e educadores hospitalares na identificação do sofrimento espiritual.

5.Fontes

  • SBP. Dimensão espiritual no adoecimento pediátrico: evidências, desafios e caminhos possíveis – Atualização. Documento Científico nº 38, Departamento de Medicina da Dor e Cuidados Paliativos, 07/04/2026. sbp.com.br
  • AAP Section on Hospice and Palliative Medicine. Pediatric Palliative Care and Hospice Care Commitments, Guidelines, and Recommendations. Pediatrics 2013;132:966–72. Linebarger JS et al. Guidance for Pediatric End-of-Life Care. Pediatrics 2022;149:e2022057011.
  • NICE. NG61 End of life care for infants, children and young people with life-limiting conditions (2016, atual. 2019); QS160 (2017). Together for Short Lives. A Guide to Children's Palliative Care, 4th ed. (2018).
  • Ministerio de Sanidad. Cuidados Paliativos Pediátricos en el Sistema Nacional de Salud: Criterios de Atención (2014). SECPAL Grupo de Espiritualidad. Cuestionario GES.
  • Benini F et al. Carta di Trieste (Fondazione Maruzza). SICP. Core Curriculum in Assistenza Spirituale (2019, rev. 2022). Legge 38/2010.
  • Puchalski C et al. Improving the quality of spiritual care as a dimension of palliative care: the report of the Consensus Conference. J Palliat Med 2009;12:885–904; Puchalski C et al. J Palliat Med 2014;17:642–56.
  • Balboni TA et al. Spirituality in Serious Illness and Health. JAMA 2022;328:184–97.
  • Johns Hopkins Children's Center. Pediatric Palliative Care — Our Team.
  • EAPC Spiritual Care Reference Group. White paper on spiritual care education in palliative care. BMC Palliat Care 2020;19:9. Benini F et al. GO-PPaCS: standards for pediatric palliative care. J Pain Symptom Manage 2022;63:e529.
  • WHO. Integrating palliative care and symptom relief into paediatrics (2018).