Temas atualizados pela SBP · Comparativo com instituições de referência

Eixo cérebro-intestino e nutrição

DC SBP nº 27 (24/02/2026) comparado com AAP, NICE, AEP/SEGHNP, SIP/SIGENP, Harvard, Johns Hopkins e ESPGHAN/WGO/Roma.

Resumo com convergências e divergências entre a atualização da Sociedade Brasileira de Pediatria e AAP, NICE, AEP, Sociedade Italiana de Pediatria, Harvard (Boston Children's) e Johns Hopkins Children's Center. Documento original da SBP (acervo, associados) · 📄 Baixar em PDF

Em resumo

O DC nº 27 da SBP é uma revisão conceitual do eixo microbiota-intestino-cérebro: descreve mecanismos, os transtornos da interação intestino-cérebro (DGBI, Roma IV/V) e a formação da microbiota nos 1.000 dias, mas não emite recomendações práticas — não nomeia cepas, doses nem condutas. As referências internacionais concordam com a fisiopatologia descrita e vão além: ESPGHAN, WGO, AEP e SIGENP recomendam probióticos cepa-específicos (L. reuteri DSM 17938 na cólica de amamentados; LGG na SII), o NICE os desaconselha na cólica, e todas as pediátricas põem TCC e hipnoterapia como primeira linha na dor abdominal funcional — tema que a SBP não trata.

1.O que a SBP diz

Documento: DC nº 27, 24/02/2026, 13 p. de conteúdo. DC de Gastroenterologia (pres. Cristina Targa Ferreira; sec. Elisa de Carvalho). Revisão narrativa, sem gradação de evidência e sem quadro de recomendações.

Tema O que o documento afirma
Eixo Rede bidirecional neural (vago/SNE), química (serotonina), imune e microbiana (AGCC, metabólitos do triptofano, permeabilidade); conceito atual "eixo microbiota-intestino-cérebro"
Fatores moduladores Dieta (prebióticos, fermentados), estresse, exercício; probióticos/prebióticos (HMOs no lactente) "podem ser usados como terapia" — sem cepa, dose ou indicação
Neurogastroenterologia Nova subespecialidade; disbiose precoce (ECN, antibióticos) altera SNE e motilidade
Dor e estresse Eixo HPA/cortisol; crianças com TEA e ansiedade têm mais sintomas GI; ISRS como 1ª linha em DGBI com transtorno de humor, com eficácia limitada
DGBI Diagnóstico por sintomas (critérios de Roma); Roma V (reunião 2023, "resultados ainda não publicados"): sigla DGBI substitui "funcional", divisão alto/baixo em vez de faixa etária. RGE em 50% dos lactentes de 2–8 meses; constipação em 25%
Nutrição e DGBI Alimentos geram hipersensibilidade visceral; dieta ocidental ultraprocessada; "benefícios das modificações dietéticas permanecem controversos"; lista low-FODMAP, probióticos, óleo de hortelã-pimenta, dieta sem glúten e fibras sem se posicionar; cita ESPGHAN/NASPGHAN 2025
Microbioma e nutrição Forma-se até 2–3 anos; 1.000 dias; cesárea, não amamentação, dieta ocidental e antibióticos alteram a microbiota; amamentação fundamental (HMOs); evitar antibióticos e antiácidos nos primeiros anos

Não aborda: cólica do lactente, dor abdominal funcional como entidade, terapias psicológicas, doses ou cepas de probióticos, alimentação complementar.

Documentos SBP correlatos com conduta: DGF no lactente e na criança <4 anos (2022) — Roma IV, modelo biopsicossocial, cólica com manejo centrado na tranquilização dos pais e probióticos com "alguma evidência"; Alimentação complementar (2024) — AME 6 meses, sem ultraprocessados nem açúcar até 2 anos.

2.Posição das referências internacionais

Referência Documento e ano Posição resumida
AAP Probiotics and Prebiotics in Pediatrics (2010); Chronic Abdominal Pain (AAP/NASPGHAN 2005); HealthyChildren — DGBI (2023); HealthyChildren — cólica (2024) 2010: probióticos não recomendados rotineiramente na cólica nem na dor abdominal funcional. 2005: modelo biopsicossocial; TCC útil. 2023: usa "DGBI"; TCC e hipnose eficazes; low-FODMAP ajuda alguns. 2024 (cólica): não cita probióticos; exclusão de alimentos da dieta materna.
NICE CG61 SII em adultos; CKS "Colic – infantile" (rev. 2022; via NHS Colic Pathway 2023) CG61 (≥18 anos): probióticos por ≥4 semanas se o paciente quiser; low-FODMAP só com nutricionista; TCC/hipnoterapia após 12 meses refratários. CKS cólica: tranquilização; não recomendar simeticona, lactase, probióticos, fitoterápicos, manipulação espinhal.
AEP / SEGHNP Protocolos AEP 2023 — Probióticos y prebióticos; EnFamilia — Cólicos (2023) Cita o "eje cerebro-intestino-microbioma"; cólica: L. reuteri DSM 17938 eficaz (tratamento e prevenção); DAF/SII: LGG e L. reuteri DSM 17938; especificidade de cepa. EnFamilia: probióticos melhoram "alguns", sobretudo amamentados.
SIP / SIGENP Italian guidelines for IBS in children (2024) Roma IV; dieta "tradicional" (forte); dieta sem glúten não recomendada; low-FODMAP sem recomendação forte; probióticos condicional/moderada: LGG 1–3×10⁹, L. reuteri DSM 17938, B. lactis B94, B. coagulans; amitriptilina (forte, especialista); TCC e hipnoterapia (forte).
Harvard Harvard Health — The gut-brain connection (2023) Eixo bidirecional; abordagens psicológicas superam o tratamento convencional isolado. Boston Children's: página bloqueada.
Johns Hopkins The Brain-Gut Connection; GIFT Center SNE como "segundo cérebro". GIFT: DGBI; ~15% dos escolares com DAF; equipe multidisciplinar; TCC, hipnose, biofeedback, neuromodulação auricular (IB-Stim).
ESPGHAN / NASPGHAN / WGO / Roma ESPGHAN 2023 — probióticos; ESPGHAN/NASPGHAN 2025 — SII e DAF; WGO 2023; Roma V 2026 ESPGHAN 2023: cólica em amamentados — L. reuteri DSM 17938 ou B. lactis BB-12, 10⁸ UFC/dia ≥21 dias; fórmula: sem recomendação; DAF: L. reuteri; SII: LGG; constipação: não usar. 2025: hipnoterapia forte/moderada, TCC forte; LGG na SII; low-FODMAP condicional e cauteloso. WGO: L. reuteri nível 1 na cólica. Roma V publicado em 2026: classificação anatômica pediátrica.

3.Concordâncias e discordâncias

Tema SBP (DC 27 + correlatos) AAP NICE AEP/SEGHNP SIP/SIGENP Harvard / J. Hopkins ESPGHAN / WGO Veredito
Fisiopatologia do eixo Descrita em detalhe Idem Idem Idem Idem Idem Concordância plena
Terminologia e critérios DGBI; Roma IV; Roma V "não publicado" DGBI "IBS", "colic" DGF/DGBI Roma IV DGBI Roma V publicado 2026 SBP já desatualizada quanto a Roma V
Aleitamento e microbiota Fundamental; HMOs Leite humano é o melhor; exclusão na dieta materna Não mudar dieta materna Dieta materna só se APLV Probiótico em amamentados Concordância
Ultraprocessados / dieta Dieta ocidental como fator; zero ultraprocessados <2 anos (SBP 2024) Sem documento Hábitos regulares (adultos) Alimentação como determinante "Dieta tradicional"; sem glúten não recomendada Fibras solúveis na SII Concordância de princípio
Probióticos na cólica Genérico; SBP 2022: "alguma evidência" 2010: não rotineiro Não recomendar L. reuteri DSM 17938 eficaz Segue ESPGHAN L. reuteri ou BB-12 10⁸/d ≥21 d em amamentados Discordância entre blocos; SBP sem posição
Probióticos na DAF/SII Não aborda 2010: não; 2023: "empregados" Adultos: ensaio 4 sem LGG e L. reuteri Condicional: LGG, L. reuteri, B. lactis, B. coagulans LGG na SII (moderada) Concordância parcial Europa/WGO; SBP omissa
Low-FODMAP em crianças "Controverso" "Ajuda alguns" Só com nutricionista Sem recomendação forte Condicional, cauteloso Concordância em cautela
Terapias psicológicas Modelo biopsicossocial; não recomenda TCC/hipnose eficazes 2ª linha após 12 m (adultos) Forte Superam o convencional; GIFT Hipnoterapia forte; TCC forte Unanimidade das referências; lacuna da SBP
Farmacoterapia ISRS 1ª linha em DGBI + humor Antiespasmódicos, hortelã ADT 2ª linha Amitriptilina forte Antidepressivos no SNE Amitriptilina/hortelã condicional; contra citalopram SBP cita ISRS onde diretrizes preferem amitriptilina
Neuromodulação auricular Não aborda Promissora JH usa IB-Stim Condicional/moderada Lacuna da SBP

4.Síntese

Converge: a descrição da SBP sobre o eixo microbiota-intestino-cérebro, o papel dos 1.000 dias, da amamentação (HMOs), da via de parto e dos antibióticos precoces é a mesma de AAP, AEP, SIGENP, Harvard e Johns Hopkins. Todos usam o termo DGBI e os critérios de Roma.

Diverge: a SBP não traduz o conceito em conduta. Onde ESPGHAN, WGO, AEP e SIGENP recomendam probióticos por cepa e dose (L. reuteri DSM 17938 10⁸ UFC/dia por ≥21 dias na cólica de amamentados; LGG 1–3×10⁹ na SII), o NICE os desaconselha na cólica e a AAP (2010) não os recomenda — o documento da SBP diz apenas que "podem ser usados como terapia". A discordância real está entre Europa continental (a favor, cepa-específico) e Reino Unido (contra); a SBP fica fora do debate.

Lacuna mais relevante: terapias psicológicas. ESPGHAN/NASPGHAN 2025 (hipnoterapia forte/moderada, TCC forte), SIGENP 2024 (forte), AAP e Johns Hopkins (GIFT) as colocam como primeira linha na dor abdominal funcional; a SBP menciona o modelo biopsicossocial mas não as recomenda.

Observações críticas

(1) O texto afirma que os resultados de Roma V "ainda não foram publicados", mas os capítulos saíram em Gastroenterology em 2026 — a próxima atualização deve incorporar a classificação anatômica pediátrica. (2) Cita ISRS como primeira linha farmacológica, enquanto as diretrizes pediátricas preferem amitriptilina sob especialista e recomendam contra citalopram. (3) Para conduta, o pediatra deve recorrer ao guia SBP de DGF no lactente (2022) e às diretrizes ESPGHAN/NASPGHAN 2025, que o próprio documento cita.

5.Fontes