Resumo com convergências e divergências entre a atualização da Sociedade Brasileira de Pediatria e AAP, NICE, AEP, Sociedade Italiana de Pediatria, Harvard (Boston Children's) e Johns Hopkins Children's Center. Documento original da SBP (acervo, associados) · 📄 Baixar em PDF
O Guia Prático nº 44, assinado em conjunto por SBP, SBIm e FEBRASGO, consolida a estratégia brasileira contra o vírus sincicial respiratório: vacina RSVpreF (Abrysvo) em toda gestante a partir da 28ª semana, dose única por gestação, em qualquer época do ano, coadministrável com influenza, COVID-19, dTpa e hepatite B, com meta de 80% de cobertura; nirsevimabe (50 mg < 5 kg; 100 mg ≥ 5 kg; 200 mg na segunda sazonalidade de alto risco) para prematuros < 37 semanas e crianças < 24 meses com comorbidades no SUS, e, na recomendação das sociedades, também para filhos de mães não vacinadas, imunossuprimidas ou com parto < 14 dias após a vacina, além de decisão compartilhada para lactentes saudáveis; e uma regra de transição para quem recebeu palivizumabe em 2025. Todas as referências internacionais adotam as mesmas duas ferramentas. As diferenças estão na janela gestacional (EUA e Itália vacinam entre 32 e 36 semanas de forma sazonal; UK, OMS e Brasil a partir de 28 semanas o ano todo), no alcance do monoclonal (universal na Espanha e na Itália, e nos EUA para todo lactente cuja mãe não foi vacinada; restrito a grupos de risco no Reino Unido e no SUS), na regra dos 14 dias (adotada pelos EUA e pela SBP, mas não pelo UK/Espanha nem pelo MS) e na ausência do clesrovimabe (Enflonsia), já recomendado pela AAP e pelo Green Book britânico e aprovado pela EMA em abril de 2026.
1.O que a SBP recomenda
Documento: Guia Prático nº 44, 14/05/2026, 11 p. Posicionamento conjunto SBP + SBIm + FEBRASGO; DC de Imunizações (pres. Eduardo Jorge da Fonseca Lima; sec. Renato Kfouri); relatores Juarez Cunha, Tânia Petraglia, Eduardo Jorge da Fonseca Lima e Renato Kfouri.
Carga da doença: 33 milhões de episódios/ano em < 5 anos, 3,6 milhões de hospitalizações e 66–199 mil óbitos; a maioria das hospitalizações ocorre em bebês saudáveis a termo (81% dos casos brasileiros, Ribeiro 2024), mas prematuros e portadores de comorbidades têm 2–3 vezes mais morbidade e 15–30 vezes mais mortalidade.
Vacina RSVpreF (Abrysvo) na gestante
| Item | Posição SBP/SBIm/FEBRASGO |
|---|---|
| Evidência | MATISSE (> 7.400 gestantes, 24–36 s): eficácia 81,8% contra doença grave até 3 meses e 69,4% até 6 meses; efetividade em vida real na Argentina (BERNI), Reino Unido e EUA |
| Indicação | Toda gestante a partir da 28ª semana, sem limite superior de idade gestacional ou de idade materna, em qualquer época do ano — igual à recomendação do PNI |
| Esquema | Dose única 0,5 mL IM por gestação; conservar a 2–8 °C, usar em até 4 h após reconstituição |
| Coadministração | Influenza, COVID-19, dTpa e hepatite B |
| Antes de 28 s | ANVISA licencia ≥ 24 s: na rede privada, decisão compartilhada; no SUS, erro programático |
| Meta | 80% de cobertura; disponível no SUS e na rede privada; Arexvy (GSK) não é indicada para gestantes |
Anticorpos monoclonais
| Item | Posição SBP/SBIm/FEBRASGO |
|---|---|
| Nirsevimabe — evidência | 79,5% de redução de infecção de via aérea inferior com atendimento, 77,3% de hospitalização e 86% de doença muito grave (fase 2b + MELODY) |
| Dose | 50 mg (< 5 kg) ou 100 mg (≥ 5 kg), dose única IM, idealmente logo após o nascimento; 200 mg (2 × 100 mg) na segunda sazonalidade de alto risco; a partir de 500 g, sem fracionar; coadministrável com todas as vacinas |
| PNI (independente da vacinação materna) | Prematuros < 37 semanas até < 6 meses, em qualquer época; comorbidades elegíveis até < 24 meses durante a sazonalidade |
| SBP/SBIm (qualquer época) | RN de mães não vacinadas; RN de mães imunossuprimidas mesmo vacinadas; parto < 14 dias após a vacina; prematuros < 37 s até 12 meses; < 24 meses com DBP, cardiopatia hemodinamicamente significativa, imunocomprometimento, Down, fibrose cística, doença neuromuscular ou anomalias de via aérea |
| Decisão compartilhada | Nova dose em prematuros < 12 meses se a 1ª dose foi há > 6 meses; lactentes < 12 meses conforme risco; 12–< 24 meses sem risco conforme epidemiologia (100 mg < 10 kg; 200 mg ≥ 10 kg) |
| Palivizumabe | 55% de redução de hospitalização; 15 mg/kg IM mensal, até 5 doses. Transição 2026: manter em quem o recebeu em 2025 (prematuros ≤ 28 s 6 d < 1 ano; < 24 m com DBP/cardiopatia); nascidos após a sazonalidade de 2025 até janeiro de 2026 → nirsevimabe; não intercambiar na mesma sazonalidade; se faltar palivizumabe → nirsevimabe |
| Sazonalidade (MS) | Norte fev–jun; NE/CO/SE mar–jul; Sul abr–ago |
| Mãe vacinada | Nirsevimabe não é de rotina, exceto nas situações acima; a vacinação materna é a estratégia universal, o monoclonal é dirigido a prematuros e comorbidades |
Não aborda: clesrovimabe (Enflonsia; EMA abr/2026; AAP e Green Book 2026); a janela 32–36 semanas adotada por EUA/Itália; dados de 2ª temporada do NIRSE-GAL; descontinuação do palivizumabe nos EUA (31/12/2025); custo-efetividade; e o fato de a regra dos 14 dias não constar dos documentos oficiais do MS.
2.Posição das referências internacionais
| Referência | Documento e ano | Posição resumida |
|---|---|---|
| AAP / ACOG / CDC | AAP Policy Statement — RSV prevention 2025-26 (Pediatrics 2025;156:e2025073923) e atualização 2026-27 (02/09/2026); ACIP/MMWR 28/08/2025 — clesrovimabe; CDC — guia clínico lactentes; ACOG 2026-27 | 1ª temporada: monoclonal para todo lactente < 8 meses cuja mãe não foi vacinada, tem status desconhecido ou pariu < 14 dias após a vacina — nirsevimabe 50/100 mg ou clesrovimabe 105 mg, sem preferência. 2ª temporada (8–19 m) só alto risco (critérios ampliados 2025: < 32 s, cardiopatia, DBP, anomalias pulmonares, imunossupressão grave, FC selecionada, Down, indígenas), apenas nirsevimabe 200 mg. Mãe vacinada ≥ 14 dias → monoclonal "geralmente não necessário". Palivizumabe (Synagis) descontinuado nos EUA em 31/12/2025. ACOG: Abrysvo 32 0/7–36 6/7 s, janela sazonal (setembro–janeiro), dose única na vida. Em 2026-27 o CDC não emitiu novas recomendações (ACIP em impasse); AAP, ACOG, AAFP e IDSA publicaram guias independentes. |
| Reino Unido — JCVI / Green Book / NHS | Green Book — capítulo VSR (03/06/2026); NHS England — nirsevimabe (jul/2025) | Abrysvo para toda gestante ≥ 28 semanas, o ano inteiro, de preferência em consulta separada da dTpa. Monoclonal substitui o palivizumabe apenas em grupos de risco: < 32 s na 1ª temporada, DBP, cardiopatia e imunodeficiência grave < 24 m; clesrovimabe 105 mg ou nirsevimabe, independentemente da vacinação materna. Sem oferta universal a lactentes a termo. |
| Espanha — Ministério / CAV-AEP | Ministerio de Sanidad — VRS; CAV-AEP — calendário 2026; NIRSE-GAL (Lancet ID 2024) | Nirsevimabe universal para todos < 6 meses no início da estação e para os nascidos durante a estação (outubro–março, nas primeiras 24–48 h de vida); alto risco (< 35 s, cardiopatia, DBP, imunodeficiência, síndromes) até 24 m com 2ª dose. Vacina materna não integra o programa público. Coberturas de 88–95%; efetividade 82% contra hospitalização e 86,9% contra doença grave (NIRSE-GAL); 2ª temporada: 55,3% de redução adicional (Lancet ID, jan/2026). |
| Itália — SIP / SIN / Ministério | SIP-SIN — recomendações unificadas nirsevimabe (19/09/2025); Intesa Stato-Regioni 2025-26 | Nirsevimabe universal na 1ª temporada (nascidos abr–set: dose em outubro; nascidos out–abr: antes da alta); 2ª temporada só crônicos; vacina materna 32–36 s quando o parto cair na estação, coexistindo com o monoclonal no calendário 2025-26; Vêneto: −74% de hospitalizações. |
| OMS | Position paper VSR (WER, 30/05/2025) | RSVpreF dose única ≥ 28 semanas ou nirsevimabe; recomenda que cada país escolha um dos dois produtos conforme custo e logística; Abrysvo pré-qualificada em março de 2025. EMA: Beyfortus (2022) e Enflonsia/clesrovimabe (17/04/2026). |
| Harvard — Boston Children's | Sem documento primário próprio; segue AAP/CDC | Prática alinhada à AAP: monoclonal universal se mãe não vacinada, 2ª temporada para crônicos. |
| Johns Hopkins | Bloomberg School — RSV recommendations and guidance (Karron, 04/10/2024) | Abrysvo 32–36 s entre setembro e janeiro; nirsevimabe para < 8 meses de mães não vacinadas; 2º ano só crônicos. |
| Brasil — MS/CONITEC | Estratégia de vacinação contra o VSR em gestantes (MS, 2025); CONITEC Rel. 974 e 975/2025; Portarias SECTICS 14 e 15/2025; Protocolo de Uso (Portaria SCTIE 14/2026) | Abrysvo no SUS desde dez/2025 (> 425 mil doses até fev/2026); nirsevimabe no SUS desde fev/2026 para prematuros ≤ 36 s 6 d e < 24 m com comorbidades; sem ampliação universal em 2026; palivizumabe complementar; a regra dos 14 dias não consta dos documentos do MS. |
3.Concordâncias e discordâncias
| Tema | SBP/SBIm/FEBRASGO | AAP/ACOG | Reino Unido | Espanha | Itália | OMS | Harvard | J. Hopkins | Leitura |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Vacina materna: janela | ≥ 28 s, ano inteiro | 32–36 s, set–jan | ≥ 28 s, ano inteiro | Fora do programa público | 32–36 s se parto na estação | ≥ 28 s | AAP | 32–36 s sazonal | Divergência: ≥ 28 s ano todo (UK/OMS/Brasil) vs 32–36 s sazonal (EUA/Itália) |
| Dose única por gestação | Sim | ACOG: única na vida | Por gestação | — | — | Por gestação | — | — | Concordância; EUA mais restritivo |
| Coadministração | Influenza, COVID, dTpa, hep B | Sim | Separar da dTpa quando possível | — | Sim | — | — | — | Concordância com nuance britânica |
| Monoclonal: alcance | Prematuros/comorbidades + filhos de mãe não vacinada; a termo por decisão compartilhada | Universal < 8 m se mãe não vacinada | Só risco (< 32 s, DBP, cardiopatia, imunodef.) | Universal < 6 m | Universal 1ª temporada | Um produto por país | AAP | AAP | Divergência principal: universal (ES/IT/EUA) vs restrito (UK/SUS) |
| Produto | Nirsevimabe | Nirsevimabe ou clesrovimabe | Nirsevimabe ou clesrovimabe | Nirsevimabe | Nirsevimabe | Nirsevimabe | — | — | SBP omite clesrovimabe (EMA abr/2026) |
| Dose | 50/100 mg; 200 mg 2ª temporada | Igual; clesrovimabe 105 mg fixo | Igual | Igual | Igual | Igual | — | — | Concordância |
| 2ª temporada | Alto risco 200 mg; decisão compartilhada até 24 m | Alto risco 8–19 m, só nirsevimabe | Alto risco < 24 m | Alto risco ≤ 24 m | Crônicos | — | — | — | Concordância |
| Regra dos 14 dias | Sim (parto < 14 d após vacina → mAb) | Sim | Não (mAb independente em grupos de risco) | Não se aplica | — | — | — | Sim | Divergência; MS não a formaliza |
| Mãe vacinada → mAb no a termo | Não de rotina | "Geralmente não necessário" | Não | Não aplicável | Coexistem | Escolher um | — | Não | Concordância |
| Palivizumabe | Transição 2026, complementar | Descontinuado (dez/2025) | Residual | Substituído | Substituído | — | — | — | Brasil ainda o usa |
| Época de administração | Qualquer época (SBP); sazonal (PNI comorbidades) | Sazonal (out–mar) | Sazonal | Sazonal | Sazonal | — | — | — | SBP mais liberal, coerente com sazonalidade regional brasileira |
4.Síntese
O guia brasileiro está alinhado ao modelo britânico e à OMS: vacinação materna universal a partir de 28 semanas o ano inteiro — justificada pela sazonalidade escalonada entre as regiões do país — e monoclonal focado em prematuros e comorbidades. As referências norte-americana e italiana adotam uma janela gestacional mais tardia (32–36 semanas) e sazonal, com base na análise de segurança do MATISSE (sinal de prematuridade não confirmado, mas que levou a FDA a licenciar 32–36 s), o que o pediatra deve conhecer ao orientar famílias que leem fontes estrangeiras. A divergência de maior impacto clínico é o alcance do monoclonal: Espanha e Itália demonstraram, com programas universais, reduções de 74–86% nas hospitalizações e sustentam a imunização de todo lactente na primeira temporada; a AAP faz o mesmo para os filhos de mães não vacinadas; o Reino Unido e o SUS restringem a grupos de risco, apostando na vacinação materna. A SBP ocupa posição intermediária ao recomendar nirsevimabe para filhos de mães não vacinadas e admitir decisão compartilhada nos demais — uma orientação mais ampla que a do PNI, que o pediatra deve explicitar como recomendação da sociedade e não como oferta pública. Dois pontos ficam desatualizados: o clesrovimabe (dose fixa de 105 mg, independente do peso), já incorporado pelos EUA e pelo Reino Unido e aprovado pela EMA um mês antes do guia, e a descontinuação do palivizumabe nos EUA, que sinaliza o fim da profilaxia mensal — o Brasil mantém regra de transição enquanto o estoque público existir. Por fim, a regra dos 14 dias é compartilhada com a AAP, mas não consta dos documentos do MS nem dos programas britânico e espanhol; no SUS, um RN a termo de mãe vacinada 10 dias antes do parto não é elegível ao nirsevimabe, o que o guia não deixa claro.
- Duas listas de elegibilidade: a do PNI (prematuros < 37 s até 6 meses; comorbidades até 24 meses na sazonalidade) e a das sociedades (mais ampla, inclui filhos de mãe não vacinada e decisão compartilhada). Deixar claro à família qual delas dá acesso ao SUS e qual depende da rede privada.
- Parto < 14 dias após a vacina: a SBP recomenda nirsevimabe, mas o protocolo do MS não prevê essa indicação — na prática, o acesso será privado.
- Janela gestacional: vacinar entre 28 e 36 semanas maximiza a transferência de anticorpos; após 36 semanas a proteção é menor, mas a vacina continua indicada até o parto (posição da SBP, do UK e da OMS; não da ACOG).
- Clesrovimabe (Enflonsia): sem registro na ANVISA; se a família trouxer dados estrangeiros, explicar que é alternativa equivalente, dose fixa de 105 mg, ainda indisponível no Brasil.
- Não intercambiar palivizumabe e nirsevimabe na mesma sazonalidade; se o palivizumabe faltar, completar com nirsevimabe é aceito pela SBP.
- Segunda temporada: 200 mg (2 × 100 mg) apenas para alto risco; a ampliação a crianças de 12–24 meses sem risco é decisão compartilhada sem respaldo em nenhuma referência internacional.
5.Fontes
- SBP, SBIm, FEBRASGO. Uso de imunizantes contra o VSR: vacinação em gestantes e anticorpos monoclonais em crianças. Guia Prático nº 44, Departamento de Imunizações, 14/05/2026. sbp.com.br
- American Academy of Pediatrics. Policy Statement: Recommendations for the prevention of RSV disease in infants and children, 2025-26. Pediatrics 2025;156(5):e2025073923; atualização 2026-27 (02/09/2026).
- ACIP/CDC. Use of clesrovimab for prevention of RSV disease among infants. MMWR 2025;74(32). CDC. Clinical guidance for RSV immunization in infants and young children.
- ACOG. 2026-27 respiratory virus immunization recommendations in pregnancy.
- UK Health Security Agency. Green Book, chapter 27a: Respiratory syncytial virus (03/06/2026). NHS England. Nirsevimab roll-out for vulnerable babies (jul/2025).
- Ministerio de Sanidad (Espanha). Inmunización frente al VRS. CAV-AEP. Calendario de inmunizaciones 2026. Ares-Gómez S et al. NIRSE-GAL. Lancet Infect Dis 2024; two-season follow-up, Lancet Infect Dis 2026.
- Società Italiana di Pediatria / Società Italiana di Neonatologia. Raccomandazioni unificate per la profilassi con nirsevimab (19/09/2025). Intesa Stato-Regioni, stagione 2025-26.
- WHO. Respiratory syncytial virus vaccines and monoclonal antibodies: position paper. Weekly Epidemiological Record, 30/05/2025.
- Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health. RSV recommendations and guidance (Karron RA, 04/10/2024).
- Ministério da Saúde. Estratégia de vacinação contra o VSR em gestantes (2025). CONITEC. Relatórios 974 e 975/2025. Portaria SCTIE 14/2026 — Protocolo de uso do nirsevimabe.
- Ribeiro CF et al. Perfil epidemiológico das hospitalizações por VSR no Brasil. 2024.