Temas atualizados pela SBP · Comparativo com instituições de referência

Repercussões do isolamento social na aprendizagem e no comportamento — atualização 2026

DC SBP nº 53 (14/07/2026) comparado com AAP (absenteísmo, emergência em saúde mental), Reino Unido (EEF, DfE, RCPCH State of Child Health 2026), Espanha (PISA/AEP), Itália (INVALSI/SIP), Banco Mundial/OCDE/UNICEF, Harvard (Center on the Developing Child, Education Recovery Scorecard) e Johns Hopkins.

Resumo com convergências e divergências entre a atualização da Sociedade Brasileira de Pediatria e AAP, NICE, AEP, Sociedade Italiana de Pediatria, Harvard (Boston Children's) e Johns Hopkins Children's Center. Documento original da SBP (acervo, associados) · 📄 Baixar em PDF

Em resumo

O DC nº 53 atualiza a análise de 2020–21 sobre o fechamento das escolas: a perda média de aprendizagem foi de 0,17 desvio-padrão (até 8 meses de ensino formal), maior em leitura e matemática e concentrada nos mais pobres — no Brasil, quase 40% dos alunos da rede pública não tiveram acesso adequado ao ensino remoto, e o Censo Escolar de 2024 ainda mostra reprovação e defasagem idade-série elevadas; a primeira infância teve atrasos de linguagem e cognição; a saúde mental piorou (metanálise JAMA Pediatrics: depressão 25,2%, ansiedade 20,5%, o dobro do pré-pandemia; 90% dos pediatras brasileiros observaram alterações comportamentais), com sintomas persistindo dois anos após a reabertura, sobretudo em meninas adolescentes; o excesso de telas agravou sono e desempenho; e as escolas fechadas deixaram de identificar violência doméstica. As estratégias: tutoria intensiva em pequenos grupos, conectividade, suporte psicossocial escolar, formação docente e articulação intersetorial. Todas as referências concordam com o diagnóstico e com a tutoria como remédio. As diferenças são de atualidade e de foco: Banco Mundial, OCDE, NAEP, INVALSI e o Education Recovery Scorecard de Harvard já medem a recuperação (parcial em matemática, ausente em leitura nos EUA; parcial na Itália), e o Brasil tem um dado positivo que o documento omite — a alfabetização ao fim do 2º ano subiu de 36% em 2021 para 59% em 2024 e superou a meta em 2025; a AAP e o DfE britânico elegeram o absenteísmo crônico (1,5–2 vezes o nível pré-pandêmico) como o problema central pós-COVID; e a AAP, o NICE e a AEP dizem ao pediatra o que fazer na consulta — frequência escolar como sinal vital, rastreio de depressão e suicídio a partir dos 12 anos e de ansiedade dos 8 aos 18 —, orientação prática que falta ao documento.

1.O que a SBP recomenda

Documento: DC nº 53, 14/07/2026, 5 p. DC de Saúde Escolar (pres. Abelardo Bastos Pinto Junior; sec. Joel Conceição Bressa da Cunha).

Tema Conteúdo
Aprendizagem Impactos mensuráveis e persistentes em aprendizagem, neurocognição e saúde mental; metanálise: perda média de 0,17 DP ≈ até 8 meses de aprendizagem, maior em leitura e matemática; desigualdades ampliadas
Brasil Quase 40% dos estudantes da rede pública sem acesso adequado ao ensino remoto; frequência recuperada em 2023, mas reprovação e defasagem idade-série maiores em 2024; Censo Escolar 2024: maior risco de atraso nos vulneráveis; eventos climáticos extremos (RS 2024) causaram novas interrupções; regressão funcional em estudantes com transtornos do desenvolvimento por interrupção dos atendimentos
Primeira infância Atrasos cognitivos e de linguagem associados à redução de interação presencial estruturada
Saúde mental Metanálise JAMA Pediatrics: depressão 25,2%, ansiedade 20,5% (≈ dobro do pré-pandemia); pesquisa SBP: ~90% dos pediatras observaram alterações comportamentais (ansiedade, irritabilidade, sono, retraimento); sintomas internalizantes persistem 2 anos após a reabertura, sobretudo em meninas adolescentes; telas → pior sono, irritabilidade, desempenho; sedentarismo (OMS); saúde digital: supervisão ativa, limites, educação digital progressiva
Violência Escolas fechadas reduziram a identificação de violência doméstica; maior risco de maus-tratos e subnotificação; escola como fator de proteção; fortalecer redes Saúde–Educação–Assistência Social
Estratégias Tutoria intensiva e reforço em pequenos grupos (impacto consistente); conectividade e infraestrutura; suporte psicossocial escolar; formação docente para dificuldades de aprendizagem e comportamento; articulação intersetorial
Conclusão Repercussões persistentes e multifatoriais; desigualdades; mais sintomas emocionais e comportamentais; recuperação estruturada e intersetorial com políticas baseadas em evidências

Não aborda: dados do SAEB/IDEB 2023 e da alfabetização 2024–25 (recuperação brasileira acima da meta); absenteísmo crônico como métrica; rastreio de saúde mental na consulta (instrumentos, idades); orientação prática ao pediatra (papel na reintegração, atestados, frequência como sinal vital); dados sobre TEA/TDAH, transtornos alimentares, miopia e obesidade pós-pandemia; custo-efetividade da tutoria; PISA 2022.

2.Posição das referências internacionais

Referência Documento e ano Posição resumida
Evidência global — Nature/Banco Mundial/OCDE/UNICEF Betthäuser BA et al. — A systematic review and meta-analysis of the evidence on learning during the COVID-19 pandemic (Nat Hum Behav 2023); World Bank — State of Global Learning Poverty 2022; OECD — PISA 2022 Results, vol. I; UNICEF SOWC 2021 42 estudos em 15 países: d = −0,14 (≈ 35% de um ano letivo); matemática −0,18, leitura −0,09; países de renda média −0,37; sem recuperação espontânea em 2020–22. Banco Mundial: ~0,17 DP; pobreza de aprendizagem 70% nos países de renda baixa/média (57% antes); estratégia RAPID. PISA 2022: OCDE −15 pontos em matemática e −10 em leitura, em parte tendência prévia; PISA 2025 sai em dezembro de 2026. UNICEF: > 13% dos adolescentes com transtorno mental.
EUA — AAP / NAEP / Harvard-Stanford Scorecard AAP Policy — School attendance, truancy and chronic absenteeism (Pediatrics 2019;143:e20183648); AAP/AACAP/CHA — Declaration of a national emergency in child and adolescent mental health (2021); NAEP 2024 — Nation's Report Card; Education Recovery Scorecard 2025/26 (Kane & Reardon) AAP: frequência escolar como sinal vital; investigar causas médicas e psicossociais da ausência; evitar atestados que legitimem faltas; parceria com a escola. Emergência em saúde mental: rastreio universal e integração. Bright Futures/USPSTF: depressão e suicídio ≥ 12 anos, ansiedade 8–18 anos. NAEP 2024: leitura caiu no 4º e 8º anos; matemática do 4º com leve alta; 12º ano no pior nível histórico; leitura por prazer em 14% dos alunos de 13 anos. Scorecard 2025/26: recuperação parcial em matemática, sinais em leitura onde há "ciência da leitura"; absenteísmo crônico (28% → 23%, ainda 1,5–2× o pré-pandêmico) é o principal obstáculo; 108 distritos recuperaram totalmente.
Reino Unido — EEF / DfE / RCPCH EEF — Impact of COVID-19 on learning (2022–23); DfE — Working together to improve school attendance (ago/2024); RCPCH — State of Child Health (jul/2026) Perda de 1–3 meses; tutoria adiciona 4–5 meses; National Tutoring Programme com efeitos pequenos nas avaliações de 2023–24, encerrado em 2024. Ausência persistente 19–20% vs 11% pré-pandemia — prioridade do DfE. RCPCH 2026: desfechos de saúde infantil pioraram; 20% dos 8–16 anos com provável transtorno mental (NHS 2023). NICE NG134/NG225/NG87 para transtornos específicos.
Espanha — OCDE/AEP PISA 2022 Espanha; AEP — Plan Digital Familiar (2024) Matemática 473 (−8), leitura 474 (−3) — queda menor que a média OCDE; AEP: plano digital familiar contra o excesso de telas; Pediatria Social recomenda rastreio de saúde mental na APS; ensino presencial como prioridade.
Itália — INVALSI / SIP INVALSI — Rapporto 2024–25; SIP — Il bambino digitale; OKkio alla Salute Recuperação parcial no fundamental, estagnação no médio (PISA matemática 471, −16); dispersão implícita caiu de 9,7% para 6,6%; forte gradiente Norte–Sul; SIP: aumento de transtornos alimentares e de acessos psiquiátricos em adolescentes pós-pandemia.
Harvard — Center on the Developing Child / Making Caring Common Center on the Developing Child — COVID-19 resources; Making Caring Common — Loneliness in America (2024) Estresse tóxico como mecanismo; sem perda irreversível em 2020–21, mas vigiar linguagem na primeira infância; solidão em jovens adultos como legado; Scorecard (com Stanford) mede a recuperação distrito a distrito.
Johns Hopkins Institute for Education Policy; Bloomberg School — eSchool+ Tutoria de alta dosagem + currículo de qualidade como intervenções com melhor evidência; monitoramento da reabertura e da saúde mental escolar.
Brasil — INEP / Todos pela Educação INEP — SAEB/IDEB 2023 (ago/2024); Todos pela Educação — Alfabetização supera meta (mar/2026); Anuário Brasileiro da Educação Básica 2026 IDEB 2023: anos iniciais 6,0, finais 5,1, médio 4,3; alfabetização ao fim do 2º ano: 36% (2021) → 56% (2023) → 59% (2024) → meta superada em 2025 com o Compromisso Nacional Criança Alfabetizada — a maior recuperação entre as referências.

3.Concordâncias e discordâncias

Tema SBP Evidência global AAP/EUA UK Espanha Itália Harvard J. Hopkins Leitura
Perda de aprendizagem 0,14–0,17 DP Sim Sim Sim 1–3 meses Menor Sim Sim Sim Concordância
Desigualdade ampliada Sim Sim (renda média −0,37) Sim Sim — Norte–Sul Sim Sim Concordância
Recuperação Não mede Sem recuperação até 2022 Parcial (mat.), ausente (leitura) Parcial — Parcial Parcial — Divergência de atualidade: SBP omite a recuperação brasileira
Saúde mental (dobro) Sim Sim Emergência nacional 20% com transtorno Sim Sim Sim Sim Concordância
Tutoria intensiva Sim Sim (Banco Mundial) Sim (Scorecard) Sim, efeito pequeno no NTP — — Sim Alta dosagem Concordância
Absenteísmo crônico Não aborda — Problema central Prioridade DfE — Dispersão Scorecard — Lacuna da SBP
Rastreio de saúde mental na consulta Genérico — Universal ≥ 12 a; ansiedade 8–18 Dirigido (NICE) APS — — — Lacuna prática
Telas Supervisão, limites HBSC: 11% uso problemático AAP 2025 — Plan Digital Bambino digitale — — Concordância
Violência doméstica oculta Sim — Sim Sim — — Sim — Concordância
Primeira infância/linguagem Sim — Sim — — — Vigiar linguagem — Concordância
Papel do pediatra Intersetorial, genérico — Frequência como sinal vital; evitar atestados — — — — — Divergência de foco

4.Síntese

O diagnóstico do DC nº 53 é o mesmo da literatura internacional — a metanálise de Betthäuser (Nature Human Behaviour) e as estimativas do Banco Mundial sustentam a perda de 0,14–0,17 desvio-padrão, sem recuperação espontânea, com os mais pobres pagando a conta; a duplicação de sintomas depressivos e ansiosos é reconhecida por AAP, RCPCH, SIP e UNICEF; e a tutoria intensiva em pequenos grupos é a intervenção que Harvard, Johns Hopkins, EEF e Banco Mundial apontam como a de melhor evidência, ainda que o programa nacional britânico tenha mostrado efeitos menores que o esperado. O documento, porém, foi escrito em 2026 com dados de 2022–23, e é nisso que se distancia das referências. Os EUA (NAEP 2024, Scorecard 2025/26), a Itália (INVALSI 2024–25) e o Reino Unido já medem a recuperação — parcial, desigual, e travada por um fenômeno novo, o absenteísmo crônico, que permanece 1,5 a 2 vezes acima do nível pré-pandêmico e que a AAP e o DfE tratam como o problema pós-COVID por excelência. A SBP não o menciona, nem menciona o dado mais favorável do próprio país: a alfabetização ao fim do 2º ano passou de 36% em 2021 para 59% em 2024 e superou a meta em 2025 — a recuperação mais rápida entre os sistemas comparados, obtida com política pública estruturada. A segunda diferença é o destinatário: o DC fala a gestores ("articulação intersetorial", "políticas baseadas em evidências"), enquanto a AAP fala ao pediatra — a frequência escolar é um sinal vital a perguntar em toda consulta, o atestado que legitima faltas evitáveis é iatrogênico, o rastreio de depressão e risco de suicídio começa aos 12 anos e o de ansiedade aos 8. Essa tradução clínica é o que falta ao documento brasileiro.

Observações críticas
  1. Perguntar sobre frequência escolar em toda consulta ("quantos dias faltou no último mês?"): ausência ≥ 10% dos dias letivos é absenteísmo crônico e exige investigação médica (asma, sono, dor crônica), psicossocial (ansiedade, bullying, recusa escolar) e social.
  2. Rastreio de saúde mental: PHQ-A para depressão e ASQ para risco de suicídio a partir dos 12 anos; SCARED/GAD-7 para ansiedade dos 8 aos 18; encaminhar ao CAPSi/psicologia; não medicalizar o sofrimento reativo, mas não subestimar sintomas persistentes há mais de 2 anos.
  3. Atestados: evitar justificar faltas sem causa médica; preferir plano de retorno gradual em recusa escolar, com a escola.
  4. Primeira infância (nascidos 2019–2021): vigilância ativa de linguagem e comunicação social aos 18, 24 e 36 meses; demanda represada de TEA/TDAH exige triagem, não rótulo.
  5. Aprendizagem: encaminhar alunos com defasagem persistente para tutoria/reforço em pequenos grupos; conhecer o Compromisso Nacional Criança Alfabetizada e a rede de apoio local.
  6. Telas, sono, atividade física e alimentação pioraram juntos: orientar rotina com horários, sono adequado por idade e 60 minutos de atividade diária.

5.Fontes

  • SBP. Repercussões do isolamento social na aprendizagem e no comportamento dos estudantes — Atualização 2026. Documento Científico nº 53, Departamento de Saúde Escolar, 14/07/2026. sbp.com.br
  • Betthäuser BA, Bach-Mortensen AM, Engzell P. A systematic review and meta-analysis of the evidence on learning during the COVID-19 pandemic. Nat Hum Behav 2023;7:375–85. World Bank/UNESCO/UNICEF. The State of Global Learning Poverty: 2022 Update. OECD. PISA 2022 Results (Volume I).
  • Racine N et al. Global prevalence of depressive and anxiety symptoms in children and adolescents during COVID-19: a meta-analysis. JAMA Pediatr 2021;175:1142–50.
  • AAP Council on School Health. School attendance, truancy and chronic absenteeism. Pediatrics 2019;143:e20183648. AAP/AACAP/CHA. Declaration of a national emergency in child and adolescent mental health (2021). NAEP 2024. Kane TJ, Reardon SF. Education Recovery Scorecard 2025/26.
  • Education Endowment Foundation. The impact of COVID-19 on learning: a review of the evidence (2022). DfE. Working together to improve school attendance (2024). RCPCH. State of Child Health 2026.
  • AEP. Plan Digital Familiar (2024). INVALSI. Rapporto nazionale 2024–25. Società Italiana di Pediatria. Il bambino digitale.
  • Harvard Center on the Developing Child. Making Caring Common. Loneliness in America (2024). Johns Hopkins Institute for Education Policy.
  • INEP. SAEB e IDEB 2023. Todos pela Educação. Anuário Brasileiro da Educação Básica 2026; Alfabetização supera meta (2026). UNICEF. State of the World's Children 2021: On My Mind. WHO/HBSC. Teens, screens and mental health (2024).