Temas atualizados pela SBP · Comparativo com instituições de referência

Prematuridade tardia — motivo de alerta

DC SBP nº 33 (19/03/2026) comparado com AAP, NICE/BAPM, SENeo, SIN/Bambino Gesù, Harvard e Johns Hopkins.

Resumo com convergências e divergências entre a atualização da Sociedade Brasileira de Pediatria e AAP, NICE, AEP, Sociedade Italiana de Pediatria, Harvard (Boston Children's) e Johns Hopkins Children's Center. Documento original da SBP (acervo, associados) · 📄 Baixar em PDF

Em resumo

O DC nº 33 reafirma que o prematuro tardio (PTT, 34 0/7 a 36 6/7 semanas) corresponde a ~70% dos prematuros e não deve ser tratado como recém-nascido a termo: tem mais necessidade de reanimação, mais insuficiência respiratória, hipotermia, hipoglicemia, hiperbilirrubinemia, dificuldades alimentares, sepse e reinternação (80% nos primeiros 5 dias), além de desfechos cognitivos, comportamentais e cardiometabólicos piores. A SBP propõe uma "tétrade": alta segura (≥48 h, critérios objetivos), primeira consulta em até 48 h após a alta, acompanhamento de curto prazo (peso e icterícia) e follow-up diferenciado do neurodesenvolvimento. AAP, NICE/BAPM, SENeo, SIN, Harvard e Johns Hopkins concordam no essencial. As diferenças estão na extensão do follow-up ao PTT (o Reino Unido não o faz), na imunoprofilaxia do VSR (nirsevimabe universal na Espanha e nos EUA; não recomendado para 34–36 s no Reino Unido), no limite de perda de peso (7% vs 10%) e no instrumento para bilirrubina (nomograma de Bhutani vs curvas da AAP 2022).

1.O que a SBP recomenda

Documento: DC nº 33, 19/03/2026, 14 p. DC de Neonatologia (pres. Licia Maria Oliveira Moreira; sec. Rita de Cassia Silveira), relatores Carlos Alberto Moreno Zaconeta e Leila Denise Cesário Pereira.

Epidemiologia e riscos (dados citados): apneia na sala de parto em 13%; coorte brasileira de 35 hospitais (1.054 PTT × 9.720 termos) com VPP 2× e intubação 3× mais frequentes; insuficiência respiratória 18,8% vs 2,2%; hipotermia 10%; hipoglicemia com risco 7,4× (11,5% às 34 s, 5,3% às 35 s, 4,4% às 36 s); icterícia 16% vs 5,3% com pico mais tardio e BT > 20 mg/dL 8× mais frequente; aleitamento exclusivo na alta 4× menor; hemorragia peri-intraventricular 4,9×; sepse com cultura positiva 5×; IgG transplacentária ≈ metade da do termo (522 vs 1.100 mg/dL); reinternação 3×, 80% nos primeiros 5 dias, alta antes de 4 dias com OR 2,94. Longo prazo: bronquiolite (OR 1,51), hospitalização por VSR 15% vs 10%, cérebro às 36 s com 40% do volume final, TDAH 5,7% vs 4,5%, TEA 1,9% vs 1,4%, paralisia cerebral 2,7×, diabetes (RR 1,24) e hipertensão (RR 1,21), mortalidade neonatal 5–6× e infantil 3–4×.

A "tétrade" de cuidado

Componente Posição da SBP
Sala de parto e maternidade Equipe treinada no PRN-SBP presente; hora de ouro (clampeamento tardio, pele a pele e amamentação na 1ª hora) se vigoroso; 8–12 mamadas/24 h, suplementação por sonda/copo conforme glicemia e peso; peso diário; sinais vitais 6/6 h; controle glicêmico desde o nascimento por protocolo institucional; icterícia com BT total interpretada no nomograma de Bhutani (zonas de alto risco e intermediária-superior); Coombs; triagens (olhinho, oximetria, auditiva, biológica); hepatite B e BCG; avaliação de riscos psicossociais
Critérios de alta segura ≥ 48 h de vida; alimentação oral competente com pega adequada; perda de peso ≤ 3%/dia e ≤ 7% até 48 h; diurese e mecônio presentes; glicemia normal; sinais vitais estáveis por 12 h em berço comum (T 36,5–37,5 °C, FC 100–160, FR < 60); sem apneia no período de segurança; pais treinados; 1ª consulta agendada
Plano de alta Aleitamento em livre demanda; sono seguro (decúbito dorsal, berço próprio no quarto dos pais por 6 meses, sem cama compartilhada); vacinas pela idade cronológica + imunoprofilaxia do VSR; evitar aglomerações; teste do pezinho no 3º–5º dia; 1ª consulta em até 48 h após a alta; sinais de alerta; cadeirinha para o transporte; vitamina D 400 UI/dia; Caderneta da Criança
Seguimento Peso e icterícia até sair da zona de risco, com curvas de prematuros; follow-up diferenciado (a SBP reconhece que o SUS não o contempla): neurodesenvolvimento nas 4 esferas em cada consulta; M-CHAT-R/F aos 18 e 24 meses de idade cronológica; atenção às dificuldades escolares (TEA/TDAH leves, dislexia); vigilância cardiometabólica

Não aborda: teste da cadeirinha (car seat challenge) antes da alta; rastreio por neuroimagem (afirma não haver diretriz); doses ou produtos para imunoprofilaxia do VSR (remete ao calendário vacinal da SBP).

2.Posição das referências internacionais

Referência Documento e ano Posição resumida
AAP Clinical Report — "Late-Preterm" Infants: A Population at Risk (Engle, Pediatrics 2007, reafirmado); Hospital Discharge of the High-Risk Neonate (2008/2020); Hiperbilirrubinemia ≥ 35 s (Kemper 2022); Hipoglicemia neonatal (Adamkin 2011); Nirsevimabe 2025–26 Define PTT como 34 0/7–36 6/7 s e lista os mesmos riscos; alta não antes de 48 h, sinais vitais estáveis por 12 h, ≥ 24 h de alimentação bem-sucedida com avaliação formal da amamentação, perda de peso "não excessiva", bilirrubina avaliada com plano de seguimento, teste da cadeirinha para transporte, consulta em 24–48 h após a alta. Hipoglicemia: rastreio nas primeiras 24 h nos PTT. Bilirrubina: curvas de fototerapia específicas para 35–36 s (2022), fora do nomograma de Bhutani. Nirsevimabe para todos os < 8 meses na 1ª temporada, sem distinção por idade gestacional. Vigilância de desenvolvimento pelo Bright Futures (M-CHAT aos 18 e 24 m) para todos.
NICE / BAPM (Reino Unido) NICE NG194 — Postnatal care (2021); NICE CG98 — Jaundice in newborn babies under 28 days; NICE NG72 — Developmental follow-up of children born preterm (2017); BAPM — Framework for the management of late preterm infants (2023); NHS England — nirsevimabe 2025 BAPM 2023 recomenda vias transicionais na maternidade (não UTI) para 34–36 s: temperatura, glicemia com protocolo, apoio à amamentação, avaliação de icterícia por idade gestacional; alta quando alimentação estável e critérios clínicos atingidos, com visita domiciliar/consulta em 24–72 h (equipe de midwives). CG98 usa limiares de bilirrubina próprios por semana de idade gestacional (não Bhutani). NG72 restringe o follow-up estruturado do desenvolvimento a < 30 s (e 30–36 s com fatores de risco); PTT sem fatores de risco segue o programa universal. Nirsevimabe (2025): apenas < 32 s ou com cardiopatia/DPC; 34–36 s sem imunoprofilaxia.
AEP / SENeo (Espanha) SENeo — Recomendaciones para el manejo del prematuro tardío (2014; atualização 2017); Protocolo de seguimiento del prematuro tardío (2024); AEP-CAV — calendário 2025 Documento específico e detalhado: idade gestacional 34 0/7–36 6/7; glicemia às 1–2 h e antes das mamadas nas primeiras 24 h; 8–12 mamadas com observação e suplementação por indicação; alta não antes de 48–72 h, com peso, icterícia e alimentação estáveis; consulta em 48 h e novamente na 1ª semana; perda de peso máxima aceitável 10%; follow-up do prematuro tardio com marcos específicos e triagem de TEA aos 18–24 m. Nirsevimabe universal (todos os nascidos na temporada) desde 2023 — inclui PTT.
SIP / SIN (Itália) SIN — raccomandazioni follow-up neonatale (aplicável a < 32 s); Ospedale Pediatrico Bambino Gesù — prematuro tardivo; Ministero della Salute — nirsevimabe 2024–25 A SIN reconhece o PTT como "falso termo" e recomenda alta com critérios de estabilidade (temperatura, alimentação, peso, bilirrubina) e controle em 48–72 h; o follow-up estruturado nacional cobre < 32 s, com o PTT deixado ao pediatra de família com atenção a marcos e linguagem. Bambino Gesù enfatiza icterícia tardia, hipoglicemia e apoio ao aleitamento. Nirsevimabe oferecido a todos os lactentes na 1ª temporada nas regiões que aderiram (2024–25), incluindo PTT.
Harvard — Boston Children's / Brigham Cloherty & Stark's Manual of Neonatal Care (9ª ed., 2023, cap. Late Preterm); Brigham and Women's — Late preterm infant guideline Manual de referência do sistema Harvard: PTT admitido em berçário de cuidados intermediários ou transição; glicemia nas primeiras 24 h por protocolo; temperatura a cada 4–6 h; alimentação 8–12×/dia com plano lactacional; bilirrubina com curvas AAP 2022; alta ≥ 48 h com ganho de peso ou perda estabilizada, consulta em 24–48 h; car seat test; nirsevimabe antes da alta na temporada. Follow-up do neurodesenvolvimento recomendado para PTT com intercorrências (UTI, HPIV, hipoglicemia sintomática).
Johns Hopkins Children's Center Johns Hopkins Medicine — Premature/late preterm infant discharge instructions; CHOP — Late preterm infant clinical pathway (2024) (referência de pares) Orientações de alta do JH: mamadas a cada 2–3 h, sinais de icterícia e de baixa ingesta, sono seguro, consulta em 1–2 dias, vacinas pela idade cronológica. A via clínica da CHOP (padrão de referência nos EUA) detalha: glicemia por 24 h, temperatura axilar a cada 4 h, alimentação assistida, bilirrubina sérica/transcutânea antes da alta, alta ≥ 48 h, car seat challenge para < 37 s, consulta em 24–48 h.

3.Concordâncias e discordâncias

Tema SBP AAP NICE/BAPM SENeo SIN/Itália Harvard J. Hopkins Leitura
PTT não é termo; definição 34 0/7–36 6/7 Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim Concordância total
Alta não antes de 48 h ≥ 48 h ≥ 48 h quando estável (sem hora fixa) 48–72 h 48–72 h ≥ 48 h ≥ 48 h Concordância; Reino Unido é o único sem limiar horário
1ª consulta após a alta ≤ 48 h 24–48 h 24–72 h (domiciliar) 48 h 48–72 h 24–48 h 1–2 dias Concordância
Sinais vitais estáveis antes da alta 12 h 12 h 24 h 12–24 h Concordância; SENeo mais exigente
Perda de peso máxima ≤ 7% em 48 h "não excessiva" (7–10% em prática) não fixa ≤ 10% ≤ 10% 7–10% 7–10% Divergência de limiar — SBP mais conservadora
Ferramenta de bilirrubina Nomograma de Bhutani Curvas AAP 2022 por semana de IG Limiares NICE por IG Bhutani/AAP AAP AAP 2022 AAP 2022 Divergência de instrumento; SBP ainda cita Bhutani (validado apenas ≥ 36 s)
Rastreio de hipoglicemia Desde o nascimento, protocolo institucional Primeiras 24 h (Adamkin) Protocolo BAPM 1–2 h e pré-mamadas 24 h Sim 24 h 24 h Concordância
Teste da cadeirinha Não menciona Sim, antes da alta Não recomenda Não recomenda de rotina Não Sim Sim (CHOP) Divergência transatlântica; SBP silente
Imunoprofilaxia do VSR no PTT Sim (remete ao calendário) Nirsevimabe universal < 8 m Não para 34–36 s Universal Universal na temporada Sim Sim Divergência do Reino Unido
Follow-up diferenciado do neurodesenvolvimento Sim, para todo PTT Vigilância universal (Bright Futures) + atenção ao risco Só < 30 s ou 30–36 s com risco Sim, programa próprio Só < 32 s PTT com intercorrências Vigilância universal Principal divergência: SBP e SENeo ampliam; Reino Unido e Itália restringem
M-CHAT-R/F 18 e 24 m (idade cronológica) Sim Sim (para todos) Não usa M-CHAT de rotina Sim Não de rotina Sim Sim Concordância SBP–AAP–SENeo
Sono seguro, vacinas pela idade cronológica, cadeirinha de transporte Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim Concordância total

4.Síntese

O DC nº 33 está alinhado com o conjunto das referências no diagnóstico do problema e nos pilares de segurança do período neonatal imediato: nenhuma instituição discorda de que o PTT precisa de ≥ 48 h de observação, critérios objetivos de alta, apoio intensivo ao aleitamento, vigilância de glicemia e bilirrubina e consulta precoce. As divergências reais são três. A primeira é o follow-up estruturado: a SBP (com a SENeo) o recomenda para todo PTT, enquanto NICE NG72 e a SIN o reservam aos < 30–32 s ou ao PTT com fatores de risco, argumentando custo-efetividade e o fato de o risco absoluto individual ser pequeno; a AAP fica no meio, com vigilância universal e M-CHAT para todos. A segunda é a imunoprofilaxia do VSR: EUA, Espanha e Itália incluem o PTT (nirsevimabe universal); o NHS a limita a < 32 s. A terceira é técnica: a SBP cita o nomograma de Bhutani, validado para ≥ 36 s, enquanto AAP 2022 e NICE usam curvas por semana de idade gestacional que captam melhor o risco do PTT; e o limite de perda de peso de 7% é mais restritivo que os 10% da SENeo, o que pode aumentar suplementação e prolongar internações sem evidência de benefício. O documento também não menciona o teste da cadeirinha, exigido nos EUA e não recomendado na Europa — omissão coerente com a prática brasileira.

Observações críticas
  1. Bhutani vs curvas AAP 2022: o nomograma de Bhutani foi construído com RN ≥ 36 s e ≥ 2.000 g; para 34–35 s, as curvas de Kemper 2022 (ou os limiares NICE) por idade gestacional são mais adequadas. Serviços que já usam o app/planilha da AAP não precisam voltar ao nomograma.
  2. Perda de peso ≤ 7% em 48 h: critério mais rígido que o europeu (10%); vale como gatilho de avaliação da amamentação, não como indicação automática de fórmula.
  3. Follow-up diferenciado: a SBP reconhece que o SUS não o contempla; na prática, a recomendação factível é a do próprio documento — avaliar as 4 esferas do desenvolvimento em cada consulta e aplicar M-CHAT-R/F aos 18 e 24 meses — mais encaminhamento seletivo dos PTT com intercorrências (UTI, HPIV, hipoglicemia sintomática, RCIU).
  4. VSR: o DC remete ao calendário; o pediatra deve verificar a disponibilidade de nirsevimabe (PNI 2025–26 para prematuros e SUS ampliado) e da vacina materna (RSVpreF) na gestação, que altera a indicação no lactente.
  5. Teste da cadeirinha: não recomendado pela SBP nem pela Europa; a orientação prática é transporte na cadeirinha com observação da posição da cabeça e viagens curtas.

5.Fontes

  • SBP. Prematuridade tardia: motivo de alerta. Documento Científico nº 33, Departamento de Neonatologia, 19/03/2026. sbp.com.br
  • Engle WA, Tomashek KM, Wallman C; AAP Committee on Fetus and Newborn. "Late-preterm" infants: a population at risk. Pediatrics 2007;120:1390–401.
  • AAP Committee on Fetus and Newborn. Hospital discharge of the high-risk neonate. Pediatrics 2008;122:1119–26 (reafirmado).
  • Kemper AR et al. Clinical practice guideline revision: management of hyperbilirubinemia in the newborn infant 35 or more weeks of gestation. Pediatrics 2022;150:e2022058859.
  • Adamkin DH; AAP COFN. Postnatal glucose homeostasis in late-preterm and term infants. Pediatrics 2011;127:575–9.
  • AAP. Nirsevimab and RSV prevention guidance 2025–26.
  • NICE. NG194 Postnatal care (2021); CG98 Jaundice in newborn babies under 28 days (2010, atual. 2023); NG72 Developmental follow-up of children and young people born preterm (2017).
  • BAPM. Framework for the management of late preterm infants in the UK (2023). NHS England. Nirsevimab programme 2025.
  • SENeo. Recomendaciones para el manejo del prematuro tardío (2014/2017); Protocolo de seguimiento del prematuro tardío (2024). AEP-CAV, calendário 2025.
  • Società Italiana di Neonatologia. Raccomandazioni per il follow-up del neonato pretermine; Ospedale Pediatrico Bambino Gesù — Il neonato pretermine tardivo.
  • Eichenwald EC, Hansen AR, Martin CR, Stark AR. Cloherty and Stark's Manual of Neonatal Care, 9ª ed., 2023.
  • Johns Hopkins Medicine — Premature babies: discharge and home care. CHOP — Late preterm infant clinical pathway (2024).