Temas atualizados pela SBP · Comparativo com instituições de referência

Transtornos do Espectro Autista e o sistema imunológico

DC SBP nº 30 (10/03/2026) comparado com AAP, NICE, AEP/GPC espanhola, ISS/SIP, Harvard e Johns Hopkins.

Resumo com convergências e divergências entre a atualização da Sociedade Brasileira de Pediatria e AAP, NICE, AEP, Sociedade Italiana de Pediatria, Harvard (Boston Children's) e Johns Hopkins Children's Center. Documento original da SBP (acervo, associados) · 📄 Baixar em PDF

Em resumo

O DC nº 30 revisa as alterações imunológicas descritas no TEA (citocinas, autoanticorpos, microglia, ativação imune materna, inflamassoma NLRP3) e conclui que a evidência para uso clínico é moderada a baixa: não há exame imunológico de rotina nem tratamento de base imunológica recomendado por qualquer sociedade, e o padrão de cuidado permanece comportamental e educacional. AAP, NICE, AEP, ISS/SIP, Harvard e Johns Hopkins dizem exatamente o mesmo. A diferença é que NICE, AAP, AEP e ISS nomeiam as terapias a não usar (quelação, oxigenoterapia hiperbárica, secretina, dietas de exclusão, ômega-3), enquanto a SBP não as cita; em compensação, a SBP é a única a tratar explicitamente o uso indevido do rótulo "encefalite autoimune".

1.O que a SBP recomenda

Documento: DC nº 30, 10/03/2026, 8 p. DC de Imunologia Clínica (pres. Ekaterini Goudouris; sec. Antonio Condino Neto), com colaboração da Neurologia (Magda Lahorgue Nunes). Revisão crítica da literatura.

Alterações descritas na literatura (Tabela 1 do documento): linfócitos e NK com menor resposta; autoanticorpos maternos contra proteínas cerebrais fetais em ~20% das mães; autoanticorpos endógenos (MBP, receptores de serotonina, GFAP, receptor alfa de folato); ativação microglial (Vargas/Pardo 2005); citocinas pró-inflamatórias (IL-1β, IL-6, IL-8, TNF-α, IFN-γ) e ↓TGF-β1; desbalanço Th17/Treg; ativação imune materna (IL-6/IL-17) em modelos animais; inflamassoma NLRP3/caspase-1/IL-18; biomarcadores proteômicos.

Visão crítica: estudos transversais sem causalidade; TEA heterogêneo sem estratificação; comorbidades psiquiátricas confundem; amostras pequenas sem ajuste para múltiplos testes; falta de replicação; citocinas sem padronização (sangue vs líquor); achado do NLRP3 é in vitro em subgrupo pequeno.

Conclusões

Ponto Posição da SBP
Exames imunológicos Força da evidência para uso clínico rotineiro moderada a baixa; não recomendados
Tratamento imunológico "Não existe tratamento de base imunológica formal ou recomendado para o TEA por sociedades internacionais ou nacionais"; imunomodulação é promissora apenas para subgrupos selecionados em pesquisa
Padrão de cuidado Intervenções comportamentais e educacionais
Encefalite autoimune Autoanticorpos não autorizam tratar TEA como encefalite autoimune nem como encefalite viral sem diagnóstico conforme diretrizes
Pressão social Reconhecida como compreensível, mas a produção de evidência garante segurança, equidade, decisão compartilhada e uso racional de recursos

Não aborda: terapias específicas não validadas (quelação, OHB, secretina, dietas sem glúten/caseína, MMS), IVIG como conduta (cita Connery 2018 apenas como pesquisa), rastreio e diagnóstico do TEA.

2.Posição das referências internacionais

Referência Documento e ano Posição resumida
AAP Clinical Report — Identification, Evaluation and Management of Children With ASD (Hyman, Levy, Myers, Pediatrics 2020); HealthyChildren — terapias complementares (jan/2026) Fatores imunes maternos citados como associações em investigação, sem causalidade. Intervenções com evidência: ABA, NDBI, educacionais, fonoaudiologia, TO. Quelação, oxigenoterapia hiperbárica e secretina "não comprovadas… podem ser perigosas e caras" (quelação: convulsões, arritmias, lesão renal); IVIG: sem evidência, risco de alergia e trombose; dieta sem glúten/caseína: sem evidência, monitorar cálcio e vitamina D; probióticos: insuficiente.
NICE CG170 — Autism in under 19s: support and management (2013; atual. 2021); CG128 — recognition and diagnosis (2011/2017) CG128 1.7.1: nenhuma investigação médica de rotina no diagnóstico (genética/EEG só individualmente). CG170 1.3.2: não usar antipsicóticos, antidepressivos, anticonvulsivantes nem dietas de exclusão para sintomas nucleares; 1.6.3: não usar ômega-3 para sono; 1.6.4: não usar secretina, quelação nem oxigenoterapia hiperbárica em nenhum contexto. Intervenção de comunicação social mediada por pais/pares. Nada sobre imunoterapia (nenhuma recomendação a favor).
AEP / GPC do SNS (Espanha) Protocolo AEP/SENEP — TEA (2022); GPC Manejo del TEA en Atención Primaria (2009); AEMPS — MMS (2020) AEP 2022: sem causa imunológica na etiologia; tratamento = intervenção precoce, ABA, programas de pais, fonoaudiologia; "nenhuma evidência" para dietas de exclusão; quelação "não indicada"; neurofeedback, ômega-3 e OHB sem evidência. GPC 2009: sem evidência para dietas, secretina, B6+Mg, ômega-3, OHB (grau A/B) e para antimicóticos, quelantes e imunoterapia (grau C). AEMPS alerta contra dióxido de cloro/MMS.
ISS / SIP (Itália) Linea Guida ISS — TEA em crianças e adolescentes (out/2023); Linea Guida 21 (2011) LG 2023 (15 quesitos): recomenda ABA, NDBI, intervenções educacionais, PECS, mediadas por pais; sugere não usar ISRS e psicoestimulantes para sintomas nucleares; nenhum quesito sobre dietas, suplementos, imunoterapia, quelação ou OHB — simplesmente não figuram. LG 21 (2011): dieta sem glúten/caseína sem evidência (só se alergia), quelação com risco, OHB e secretina não recomendadas. Sem posição própria da SIP.
Harvard Harvard Health — OHB: usos comprovados e não comprovados (2024); Choi/Huh, Science 2016 (ativação imune materna, IL-17a) Autismo entre os usos de OHB sem aprovação do FDA nem respaldo. O modelo murino de IL-17a materna é pesquisa: "não sabemos quanto se traduz para humanos". Boston Children's: páginas não acessíveis.
Johns Hopkins / Kennedy Krieger Pardo — FAQ sobre neuroinflamação no autismo; Kennedy Krieger — Scientific Support for ABA; Cellucci et al. 2020 — critérios pediátricos de encefalite autoimune O grupo que descreveu a ativação microglial (Vargas/Pardo 2005, citado pela SBP) afirma: "não há indicação para anti-inflamatórios, imunossupressores ou IVIG em pacientes com autismo"; não se sabe se a inflamação é causa ou consequência. Kennedy Krieger: ABA como padrão "estabelecido". Critérios de encefalite autoimune (Graus 2016; Cellucci 2020): início subagudo ≤3 meses + neuroinflamação/anticorpo — TEA crônico não preenche.
FDA / Cochrane (contexto) FDA — produtos perigosos que alegam tratar autismo (2019; página retirada em 2025); Cochrane: quelação 2015, OHB 2016, ômega-3 2011, secretina FDA alertava contra quelantes, OHB, dióxido de cloro/MMS, leite de camela cru; a página foi retirada do ar no fim de 2025. Cochrane: quelação sem efeito e com mortes relatadas; OHB sem evidência e mais barotrauma; ômega-3 e secretina sem eficácia. Não existe revisão Cochrane de IVIG; seguradoras (Aetna) classificam IVIG em autismo como experimental.

3.Concordâncias e discordâncias

Ponto SBP 2026 AAP NICE AEP/GPC ISS/SIP Harvard Johns Hopkins Veredito
Hipóteses imunes Pesquisa; evidência moderada a baixa; sem causalidade Associações em investigação Não aborda Não aborda Não aborda Modelo animal; não traduzido Origem da hipótese; "causa ou consequência?" Concordância: todos tratam como pesquisa
Exames imunológicos de rotina Não recomendados Não recomendados Nenhuma investigação médica de rotina Não recomendados Não incluídos Concordância
Tratamento imunológico (IVIG, anti-inflamatórios) Nenhum recomendado por qualquer sociedade IVIG sem evidência, com riscos Nenhuma recomendação a favor Imunoterapia sem evidência (grau C) Não incluído "Não há indicação" (Pardo) Concordância
Padrão de cuidado Comportamental e educacional ABA, NDBI, educacional, fono, TO Comunicação social mediada por pais/pares ABA, intervenção precoce, pais ABA, NDBI, PECS, pais ABA "estabelecido" Concordância
Quelação Não cita Perigosa; não recomendada Não usar em nenhum contexto Não indicada Não recomendada (LG 21) Omissão da SBP
Oxigenoterapia hiperbárica Não cita Não comprovada; risco Não usar Sem evidência Não recomendada Uso não aprovado Omissão da SBP
Dietas de exclusão, ômega-3, probióticos Cita estudo; não se posiciona Sem evidência; risco nutricional Não usar dietas de exclusão; não usar ômega-3 para sono Sem evidência Dieta só se alergia Omissão da SBP
Secretina, MMS Não cita Secretina perigosa Não usar secretina Secretina sem evidência; AEMPS contra MMS Secretina não recomendada Omissão da SBP
"Encefalite autoimune" como rótulo Exige diagnóstico conforme diretrizes Não aborda Não aborda Não aborda Não aborda Critérios Graus/Cellucci: início subagudo ≤3 m SBP vai além das demais, alinhada aos critérios neurológicos

4.Síntese

Converge: há concordância plena entre a SBP e todas as referências: as alterações imunológicas são objeto de pesquisa, nenhum exame imunológico faz parte da avaliação de rotina, nenhuma sociedade recomenda tratamento imunomodulador, e o padrão de cuidado é comportamental e educacional. Os próprios grupos que originaram as hipóteses (Pardo/Johns Hopkins 2005; Choi-Huh 2016) afirmam que seus achados não justificam imunoterapia.

Diverge: as demais sociedades são prescritivas por nome — NICE ("não usar secretina, quelação nem OHB em nenhum contexto"), AAP ("perigosas e caras"), AEP e ISS/LG21 listam dietas de exclusão, ômega-3, quelação e OHB como sem evidência. O DC da SBP, focado no sistema imunológico, não nomeia nenhuma dessas terapias, embora sejam as mais oferecidas no mercado brasileiro sob o rótulo "biomédico".

Contribuição singular da SBP: é o único documento a enfrentar diretamente o enquadramento do TEA como "encefalite autoimune" ou "encefalite viral", exigindo os critérios diagnósticos formais (Graus 2016; Cellucci 2020: início subagudo, neuroinflamação ou anticorpo bem caracterizado) — um esclarecimento oportuno diante de protocolos comerciais que prescrevem IVIG, corticoides e antivirais a crianças autistas.

Observações críticas

(1) A retirada da página de alerta do FDA (fim de 2025) deixa um vazio que a SBP poderia preencher em revisão futura, listando explicitamente quelação, OHB, secretina, dióxido de cloro e dietas restritivas. (2) A Tabela 1 do documento reproduz achados como "anticorpos anti-receptor de folato em até 70%" e "melhora com IVIG" (Connery 2018, série aberta) sem a mesma ênfase crítica do texto; um leitor apressado pode tomá-los por recomendação. (3) O documento não trata do diagnóstico nem do rastreio do TEA — para isso valem o DC de Pediatria do Desenvolvimento e a AAP 2020 (M-CHAT aos 18 e 24 meses).

5.Fontes