Resumo com convergências e divergências entre a atualização da Sociedade Brasileira de Pediatria e AAP, NICE, AEP, Sociedade Italiana de Pediatria, Harvard (Boston Children's) e Johns Hopkins Children's Center. Documento original da SBP (acervo, associados) · 📄 Baixar em PDF
O DC nº 30 revisa as alterações imunológicas descritas no TEA (citocinas, autoanticorpos, microglia, ativação imune materna, inflamassoma NLRP3) e conclui que a evidência para uso clínico é moderada a baixa: não há exame imunológico de rotina nem tratamento de base imunológica recomendado por qualquer sociedade, e o padrão de cuidado permanece comportamental e educacional. AAP, NICE, AEP, ISS/SIP, Harvard e Johns Hopkins dizem exatamente o mesmo. A diferença é que NICE, AAP, AEP e ISS nomeiam as terapias a não usar (quelação, oxigenoterapia hiperbárica, secretina, dietas de exclusão, ômega-3), enquanto a SBP não as cita; em compensação, a SBP é a única a tratar explicitamente o uso indevido do rótulo "encefalite autoimune".
1.O que a SBP recomenda
Documento: DC nº 30, 10/03/2026, 8 p. DC de Imunologia Clínica (pres. Ekaterini Goudouris; sec. Antonio Condino Neto), com colaboração da Neurologia (Magda Lahorgue Nunes). Revisão crítica da literatura.
Alterações descritas na literatura (Tabela 1 do documento): linfócitos e NK com menor resposta; autoanticorpos maternos contra proteínas cerebrais fetais em ~20% das mães; autoanticorpos endógenos (MBP, receptores de serotonina, GFAP, receptor alfa de folato); ativação microglial (Vargas/Pardo 2005); citocinas pró-inflamatórias (IL-1β, IL-6, IL-8, TNF-α, IFN-γ) e ↓TGF-β1; desbalanço Th17/Treg; ativação imune materna (IL-6/IL-17) em modelos animais; inflamassoma NLRP3/caspase-1/IL-18; biomarcadores proteômicos.
Visão crítica: estudos transversais sem causalidade; TEA heterogêneo sem estratificação; comorbidades psiquiátricas confundem; amostras pequenas sem ajuste para múltiplos testes; falta de replicação; citocinas sem padronização (sangue vs líquor); achado do NLRP3 é in vitro em subgrupo pequeno.
Conclusões
| Ponto | Posição da SBP |
|---|---|
| Exames imunológicos | Força da evidência para uso clínico rotineiro moderada a baixa; não recomendados |
| Tratamento imunológico | "Não existe tratamento de base imunológica formal ou recomendado para o TEA por sociedades internacionais ou nacionais"; imunomodulação é promissora apenas para subgrupos selecionados em pesquisa |
| Padrão de cuidado | Intervenções comportamentais e educacionais |
| Encefalite autoimune | Autoanticorpos não autorizam tratar TEA como encefalite autoimune nem como encefalite viral sem diagnóstico conforme diretrizes |
| Pressão social | Reconhecida como compreensível, mas a produção de evidência garante segurança, equidade, decisão compartilhada e uso racional de recursos |
Não aborda: terapias específicas não validadas (quelação, OHB, secretina, dietas sem glúten/caseína, MMS), IVIG como conduta (cita Connery 2018 apenas como pesquisa), rastreio e diagnóstico do TEA.
2.Posição das referências internacionais
| Referência | Documento e ano | Posição resumida |
|---|---|---|
| AAP | Clinical Report — Identification, Evaluation and Management of Children With ASD (Hyman, Levy, Myers, Pediatrics 2020); HealthyChildren — terapias complementares (jan/2026) | Fatores imunes maternos citados como associações em investigação, sem causalidade. Intervenções com evidência: ABA, NDBI, educacionais, fonoaudiologia, TO. Quelação, oxigenoterapia hiperbárica e secretina "não comprovadas… podem ser perigosas e caras" (quelação: convulsões, arritmias, lesão renal); IVIG: sem evidência, risco de alergia e trombose; dieta sem glúten/caseína: sem evidência, monitorar cálcio e vitamina D; probióticos: insuficiente. |
| NICE | CG170 — Autism in under 19s: support and management (2013; atual. 2021); CG128 — recognition and diagnosis (2011/2017) | CG128 1.7.1: nenhuma investigação médica de rotina no diagnóstico (genética/EEG só individualmente). CG170 1.3.2: não usar antipsicóticos, antidepressivos, anticonvulsivantes nem dietas de exclusão para sintomas nucleares; 1.6.3: não usar ômega-3 para sono; 1.6.4: não usar secretina, quelação nem oxigenoterapia hiperbárica em nenhum contexto. Intervenção de comunicação social mediada por pais/pares. Nada sobre imunoterapia (nenhuma recomendação a favor). |
| AEP / GPC do SNS (Espanha) | Protocolo AEP/SENEP — TEA (2022); GPC Manejo del TEA en Atención Primaria (2009); AEMPS — MMS (2020) | AEP 2022: sem causa imunológica na etiologia; tratamento = intervenção precoce, ABA, programas de pais, fonoaudiologia; "nenhuma evidência" para dietas de exclusão; quelação "não indicada"; neurofeedback, ômega-3 e OHB sem evidência. GPC 2009: sem evidência para dietas, secretina, B6+Mg, ômega-3, OHB (grau A/B) e para antimicóticos, quelantes e imunoterapia (grau C). AEMPS alerta contra dióxido de cloro/MMS. |
| ISS / SIP (Itália) | Linea Guida ISS — TEA em crianças e adolescentes (out/2023); Linea Guida 21 (2011) | LG 2023 (15 quesitos): recomenda ABA, NDBI, intervenções educacionais, PECS, mediadas por pais; sugere não usar ISRS e psicoestimulantes para sintomas nucleares; nenhum quesito sobre dietas, suplementos, imunoterapia, quelação ou OHB — simplesmente não figuram. LG 21 (2011): dieta sem glúten/caseína sem evidência (só se alergia), quelação com risco, OHB e secretina não recomendadas. Sem posição própria da SIP. |
| Harvard | Harvard Health — OHB: usos comprovados e não comprovados (2024); Choi/Huh, Science 2016 (ativação imune materna, IL-17a) | Autismo entre os usos de OHB sem aprovação do FDA nem respaldo. O modelo murino de IL-17a materna é pesquisa: "não sabemos quanto se traduz para humanos". Boston Children's: páginas não acessíveis. |
| Johns Hopkins / Kennedy Krieger | Pardo — FAQ sobre neuroinflamação no autismo; Kennedy Krieger — Scientific Support for ABA; Cellucci et al. 2020 — critérios pediátricos de encefalite autoimune | O grupo que descreveu a ativação microglial (Vargas/Pardo 2005, citado pela SBP) afirma: "não há indicação para anti-inflamatórios, imunossupressores ou IVIG em pacientes com autismo"; não se sabe se a inflamação é causa ou consequência. Kennedy Krieger: ABA como padrão "estabelecido". Critérios de encefalite autoimune (Graus 2016; Cellucci 2020): início subagudo ≤3 meses + neuroinflamação/anticorpo — TEA crônico não preenche. |
| FDA / Cochrane (contexto) | FDA — produtos perigosos que alegam tratar autismo (2019; página retirada em 2025); Cochrane: quelação 2015, OHB 2016, ômega-3 2011, secretina | FDA alertava contra quelantes, OHB, dióxido de cloro/MMS, leite de camela cru; a página foi retirada do ar no fim de 2025. Cochrane: quelação sem efeito e com mortes relatadas; OHB sem evidência e mais barotrauma; ômega-3 e secretina sem eficácia. Não existe revisão Cochrane de IVIG; seguradoras (Aetna) classificam IVIG em autismo como experimental. |
3.Concordâncias e discordâncias
| Ponto | SBP 2026 | AAP | NICE | AEP/GPC | ISS/SIP | Harvard | Johns Hopkins | Veredito |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Hipóteses imunes | Pesquisa; evidência moderada a baixa; sem causalidade | Associações em investigação | Não aborda | Não aborda | Não aborda | Modelo animal; não traduzido | Origem da hipótese; "causa ou consequência?" | Concordância: todos tratam como pesquisa |
| Exames imunológicos de rotina | Não recomendados | Não recomendados | Nenhuma investigação médica de rotina | Não recomendados | Não incluídos | — | — | Concordância |
| Tratamento imunológico (IVIG, anti-inflamatórios) | Nenhum recomendado por qualquer sociedade | IVIG sem evidência, com riscos | Nenhuma recomendação a favor | Imunoterapia sem evidência (grau C) | Não incluído | — | "Não há indicação" (Pardo) | Concordância |
| Padrão de cuidado | Comportamental e educacional | ABA, NDBI, educacional, fono, TO | Comunicação social mediada por pais/pares | ABA, intervenção precoce, pais | ABA, NDBI, PECS, pais | — | ABA "estabelecido" | Concordância |
| Quelação | Não cita | Perigosa; não recomendada | Não usar em nenhum contexto | Não indicada | Não recomendada (LG 21) | — | — | Omissão da SBP |
| Oxigenoterapia hiperbárica | Não cita | Não comprovada; risco | Não usar | Sem evidência | Não recomendada | Uso não aprovado | — | Omissão da SBP |
| Dietas de exclusão, ômega-3, probióticos | Cita estudo; não se posiciona | Sem evidência; risco nutricional | Não usar dietas de exclusão; não usar ômega-3 para sono | Sem evidência | Dieta só se alergia | — | — | Omissão da SBP |
| Secretina, MMS | Não cita | Secretina perigosa | Não usar secretina | Secretina sem evidência; AEMPS contra MMS | Secretina não recomendada | — | — | Omissão da SBP |
| "Encefalite autoimune" como rótulo | Exige diagnóstico conforme diretrizes | Não aborda | Não aborda | Não aborda | Não aborda | — | Critérios Graus/Cellucci: início subagudo ≤3 m | SBP vai além das demais, alinhada aos critérios neurológicos |
4.Síntese
Converge: há concordância plena entre a SBP e todas as referências: as alterações imunológicas são objeto de pesquisa, nenhum exame imunológico faz parte da avaliação de rotina, nenhuma sociedade recomenda tratamento imunomodulador, e o padrão de cuidado é comportamental e educacional. Os próprios grupos que originaram as hipóteses (Pardo/Johns Hopkins 2005; Choi-Huh 2016) afirmam que seus achados não justificam imunoterapia.
Diverge: as demais sociedades são prescritivas por nome — NICE ("não usar secretina, quelação nem OHB em nenhum contexto"), AAP ("perigosas e caras"), AEP e ISS/LG21 listam dietas de exclusão, ômega-3, quelação e OHB como sem evidência. O DC da SBP, focado no sistema imunológico, não nomeia nenhuma dessas terapias, embora sejam as mais oferecidas no mercado brasileiro sob o rótulo "biomédico".
Contribuição singular da SBP: é o único documento a enfrentar diretamente o enquadramento do TEA como "encefalite autoimune" ou "encefalite viral", exigindo os critérios diagnósticos formais (Graus 2016; Cellucci 2020: início subagudo, neuroinflamação ou anticorpo bem caracterizado) — um esclarecimento oportuno diante de protocolos comerciais que prescrevem IVIG, corticoides e antivirais a crianças autistas.
(1) A retirada da página de alerta do FDA (fim de 2025) deixa um vazio que a SBP poderia preencher em revisão futura, listando explicitamente quelação, OHB, secretina, dióxido de cloro e dietas restritivas. (2) A Tabela 1 do documento reproduz achados como "anticorpos anti-receptor de folato em até 70%" e "melhora com IVIG" (Connery 2018, série aberta) sem a mesma ênfase crítica do texto; um leitor apressado pode tomá-los por recomendação. (3) O documento não trata do diagnóstico nem do rastreio do TEA — para isso valem o DC de Pediatria do Desenvolvimento e a AAP 2020 (M-CHAT aos 18 e 24 meses).
5.Fontes
- SBP. DC nº 30 — Transtornos do Espectro Autista e o Sistema Imunológico (PDF lido integralmente em 22/09/2026)
- AAP 2020 — Hyman et al. · HealthyChildren — CAM for autism (2026)
- NICE CG170 · NICE CG128
- AEP/SENEP 2022 · GPC TEA AP 2009 · AEMPS MMS 2020
- ISS Linea Guida 2023 · Linea Guida 21 (2011)
- Harvard Health — OHB 2024 · Choi et al., Science 2016
- Johns Hopkins — FAQ Pardo · Kennedy Krieger — ABA · Cellucci 2020 · Graus 2016
- ProPublica — retirada da página do FDA (2025) · Cochrane: quelação · OHB · ômega-3 · secretina
- Não verificado: texto integral AAP 2020 (paywall; corroborado por páginas oficiais da AAP); Boston Children's; posicionamento próprio da SIP; comunicado específico da AEP sobre "tratamentos biomédicos".