Temas atualizados pela SBP · Comparativo com instituições de referência

Whey protein e creatina em crianças e adolescentes

Nota de Alerta SBP nº 42 (05/05/2026) comparada com AAP, BDA/UKAD, AEP, Itália, Harvard, Johns Hopkins, ISSN e IOC; acrescidos Ministério da Saúde, Oxford e Cambridge (revisão de outubro de 2026).

Resumo com convergências e divergências entre a atualização da Sociedade Brasileira de Pediatria e as demais referências do site — Ministério da Saúde, AAP, NICE, AEP, Johns Hopkins, Harvard (Boston Children's), Oxford e Cambridge —, com o documento e a data de cada uma; outras fontes aparecem como contexto. Documento original da SBP (acervo, associados) · 📄 Baixar em PDF

Em resumo

A Nota de Alerta nº 42 responde ao crescimento do consumo de whey protein e creatina por crianças e adolescentes, impulsionado por marketing digital e produtos com apelo infantil (balas, gomas, bebidas). A SBP lembra que a necessidade proteica de crianças e adolescentes saudáveis (0,85–0,95 g/kg/dia) é facilmente atingida — e frequentemente excedida — pela alimentação; que a maioria desses produtos é ultraprocessada; que o excesso crônico de proteína sobrecarrega rim (hiperfiltração) e fígado (ciclo da ureia) e altera eixos insulina/IGF-1; e que a suplementação só se justifica em condições clínicas (desnutrição, doença crônica, má absorção) com prescrição. Posição: não indicado em crianças saudáveis e não deve ser adotado rotineiramente na adolescência. AAP, AEP, ANVISA e Health Canada dizem o mesmo; a divergência vem da nutrição esportiva (ISSN, reproduzida pela Harvard Nutrition Source), que considera a creatina segura em 3–5 g/dia para pós-púberes sob supervisão. A nota brasileira não trata do atleta adolescente, da contaminação de suplementos com anabolizantes/estimulantes nem da dismorfia muscular — tema em que AAP e Harvard STRIPED são mais completos.

1.O que a SBP recomenda

Documento: Nota de Alerta nº 42, 05/05/2026, 4 p. DC de Nutrologia (pres. e relatora Fabíola Isabel Suano de Souza; sec. Mara Alves da Cruz Gouveia; relatora Maria Carolina de Pinho Porto).

Contexto: whey (concentrado, isolado, hidrolisado) e creatina são "suplementos alimentares" na regulação da ANVISA; na maioria ultraprocessados (aromatizantes, edulcorantes, emulsificantes); oferta concentrada e descontextualizada de nutrientes; marketing em mídias digitais e produtos com apelo infantil.

Posição

Ponto Posição da SBP
Necessidade proteica 0,85–0,95 g/kg/dia em crianças e adolescentes saudáveis; facilmente atingida; muitas crianças já ingerem acima; suplementar não traz benefício comprovado e não é isento de riscos
Indicação legítima Só em condições clínicas (desnutrição, doença crônica, má absorção, demanda aumentada), com prescrição — não extrapolável a whey/creatina de venda livre
Riscos do excesso crônico Hiperfiltração glomerular e ureia; sobrecarga do ciclo da ureia (imaturidade); ↑insulina/IGF-1 e lipogênese; aditivos; substituição de refeições; relação disfuncional com a comida; padrões corporais idealizados
Recomendação Não indicado em crianças saudáveis; não deve ser adotado rotineiramente na adolescência; avaliação individual; pediatra deve educar, discutir marketing/mídias e reconhecer uso inadequado

Não aborda: segurança e dose da creatina em adolescentes atletas (ISSN); necessidade proteica do atleta adolescente (1,2–1,8 g/kg); evidência de eficácia; contaminação/adulteração de suplementos (anabolizantes, estimulantes) e certificação por terceiros; transtornos alimentares e dismorfia muscular como sinal de alerta; regulação de venda a menores.

2.Posição das demais referências

Referência Documento, versão e data Posição resumida
AAP Clinical Report — Use of Performance-Enhancing Substances (LaBotz & Griesemer, Pediatrics 2016); HealthyChildren — Performance-enhancing substances (jul/2024) Desaconselha substâncias de melhora de desempenho em < 18 anos, incluindo creatina; creatina "não parece oferecer benefício adicional" na puberdade; "a maioria dos jovens atletas com dieta equilibrada não precisa nem se beneficia de suplementos proteicos"; suplementos não regulados pela FDA, "altas taxas de contaminação"; pediatra deve perguntar sobre uso e sobre imagem corporal.
Reino Unido — BDA / UKAD BDA — Sport and exercise nutrition (rev. mai/2026); UK Anti-Doping — Supplements Hub BDA: população geral 0,75 g/kg; força/endurance ~1,4–2,0 g/kg; "suplementos não compensam má alimentação"; consultar dietista registrado; sem posição específica sobre menores. UKAD: "nenhuma garantia de que qualquer suplemento esteja livre de substâncias proibidas"; responsabilidade estrita; avaliar necessidade, risco e consequência; verificar em Informed Sport; educação escolar "100% me". NHS/FSA sem documento específico.
AEP (Espanha) Comité de Nutrición AEP — Recomendaciones nutricionales para el niño deportista (An Pediatr 2014); Prevalencia y complicaciones del uso de suplementos proteicos en adolescentes (An Pediatr 2023) Suplementação proteica "não demonstrou aumento de rendimento", não recomendada sistematicamente; creatina excluída em crianças. Estudo sevilhano (n = 263, 12–18 anos): 10,6% usam suplementos proteicos, 18,5% com efeitos adversos (diarreia, fadiga, edema), uso sem supervisão; pede controle de publicidade e venda.
Itália — SINU / Ministero della Salute SINU — LARN proteínas; Ministero della Salute — lista "Altri nutrienti e altre sostanze" (creatina) LARN: 0,90–1,00 g/kg dos 1 aos 17 anos. Ministério: creatina com aporte máximo 3 g/dia (6 g/dia por ≤ 1 mês em esportistas) e advertência obrigatória "não utilizar em gravidez e em crianças, nem por períodos prolongados sem parecer médico" — restrição a "bambini" sem idade numérica. SIP sem posicionamento específico.
Harvard — T.H. Chan / STRIPED Nutrition Source — Workout supplements (nov/2024); STRIPED — Restricting sale of weight-loss and muscle-building supplements to minors (2024) Nutrition Source reproduz a ISSN: proteína 1,4–2,0 g/kg via alimento ou pó; creatina 3–5 g/dia "segura nesses níveis", contraindicada em doença renal; FDA não avalia segurança antes da venda; sem orientação específica para adolescentes. STRIPED defende restrição de venda de suplementos de ganho muscular a menores (lei de Nova York, 2024).
Johns Hopkins — Não foi localizada página institucional específica sobre creatina/whey em adolescentes; prática segue a AAP.
ISSN / IOC / reguladores ISSN position stand — creatine (Kreider et al., JISSN 2017); Jagim et al. — Safety of creatine in adolescents (Front Nutr 2018); IOC consensus — dietary supplements (BJSM 2018); ANVISA — suspensão de gomas de creatina (jun/2026) ISSN: creatina segura a curto e longo prazo; em jovens, admissível se pós-puberdade, treino competitivo supervisionado, dieta adequada, aprovação parental, produto de qualidade, 3–5 g/dia. Jagim: nenhum estudo rigoroso de segurança em adolescentes, mas sem alterações renais/hepáticas nos estudos de eficácia; rótulos "< 18 anos" são "precaução legal, não científica". IOC: ~15% de > 600 produtos com pró-hormônios não declarados; auditoria por terceiros; suplementos "apropriados à idade e maturação". ANVISA (IN 28/2018): creatina 1,5–3 g/dia apenas ≥ 19 anos, rótulo "não deve ser consumido por crianças"; 2026: lotes de gomas suspensos por teor fora dos limites. Health Canada: creatina ≥ 18 anos.
Ministério da Saúde Guia Alimentar para a População Brasileira, 2ª ed., 2014; ANVISA — IN nº 28, de 26/07/2018 (lista de constituintes de suplementos; creatina restrita pela IN nº 76/2020) Guia: priorizar alimentos in natura e minimamente processados e evitar ultraprocessados. ANVISA: creatina autorizada em suplemento alimentar só para maiores de 19 anos (até 5 g/dia).
Oxford Oxford University Hospitals NHS FT — sem protocolo local aberto (consulta em 10/2026) Sem diretriz do NICE; segue a BDA e a UKAD.
Cambridge Cambridge University Hospitals NHS FT — sem protocolo local aberto (consulta em 10/2026) Sem diretriz do NICE; segue a BDA e a UKAD.

3.Concordâncias e discordâncias

Tema SBP Ministério da Saúde AAP BDA/UKAD AEP Itália Harvard J. Hopkins ISSN/IOC Oxford Cambridge Leitura
Whey em criança saudável Não indicado Alimentação baseada em alimentos in natura (Guia 2014) Não necessário "Alimento primeiro" Não recomendado LARN cobrem Alimento primeiro (AAP) Alimento primeiro Segue BDA/UKAD Segue BDA/UKAD Concordância total
Whey em adolescente atleta Não rotineiro; sem tratar do atleta Sem posição específica localizada Não necessário com dieta equilibrada Pó aceito como conveniência (1,4–2,0 g/kg) Não sistemático — Pó aceito — Aceito Segue BDA/UKAD Segue BDA/UKAD Divergência pediatria × nutrição esportiva; SBP silente sobre o atleta
Creatina < 18 anos Não indicada Creatina em suplemento só ≥ 19 anos (ANVISA) Não recomendada Sem idade (UKAD) Excluída "Não em crianças" (sem idade) 3–5 g/dia "segura" (sem idade) — Permitida sob supervisão em pós-púberes Segue BDA/UKAD Segue BDA/UKAD Divergência central
Necessidade proteica 0,85–0,95 g/kg Sem posição específica localizada RDA 0,75 g/kg; atletas 1,4–2,0 RDA 0,90–1,00 g/kg 1,4–2,0 atletas — 1,4–2,0 atletas Segue BDA/UKAD Segue BDA/UKAD Concordância nos valores basais; SBP não cita o teto para atletas
Ultraprocessamento e aditivos Argumento central Evitar ultraprocessados (Guia 2014) Menciona contaminação — Menciona efeitos adversos — — — — Segue BDA/UKAD Segue BDA/UKAD Ênfase singular da SBP
Contaminação / certificação (Informed Sport, NSF) Não aborda Sem posição específica localizada Sim Sim (UKAD) — — Sim — Sim (IOC ~15%) Segue BDA/UKAD Segue BDA/UKAD Lacuna da SBP
Dismorfia muscular / esteroides Cita "padrões corporais" Sem posição específica localizada Rastrear — — — STRIPED — — Segue BDA/UKAD Segue BDA/UKAD SBP superficial
Regulação de venda a menores Não aborda (ANVISA ≥ 19 a) Rotulagem por idade: creatina ≥ 19 anos (ANVISA) — — AEP pede controle Rótulo STRIPED: restringir — — Segue BDA/UKAD Segue BDA/UKAD Lacuna da SBP

Leitura (Ministério da Saúde, Oxford e Cambridge): a norma brasileira (ANVISA, vinculada ao Ministério da Saúde) só autoriza creatina em suplemento acima de 19 anos, o que apoia a SBP na divergência central com ISSN e Harvard; o Guia Alimentar coincide no foco contra ultraprocessados. Oxford e Cambridge não têm protocolo local e seguem BDA/UKAD. A conduta do documento segue a SBP.

4.Síntese

A Nota nº 42 está em sintonia com as sociedades pediátricas e os reguladores: AAP, AEP, ANVISA (creatina ≥ 19 anos), Health Canada (≥ 18) e o Ministério italiano convergem em que a proteína deve vir da alimentação e que a creatina não é indicada a menores. A contribuição própria da SBP é enquadrar whey e creatina como ultraprocessados com aditivos e apelo infantil — uma leitura de saúde pública coerente com o Guia Alimentar brasileiro e ausente nas demais referências. A divergência real está entre a pediatria e a nutrição esportiva: a ISSN (2017) e revisões subsequentes consideram a creatina segura em 3–5 g/dia para pós-púberes supervisionados, e a Harvard Nutrition Source reproduz essa posição sem restrição etária — o que explica a prevalência de 20–30% de uso entre atletas escolares nos EUA. Três omissões da nota merecem atenção: não trata do atleta adolescente (cuja necessidade proteica de 1,2–2,0 g/kg é reconhecida por BDA, ISSN e ACSM e pode ser atingida com alimentos); não alerta para a contaminação de suplementos com anabolizantes e estimulantes (~15% dos produtos, segundo o IOC) nem para a certificação por terceiros; e trata apenas de passagem da dismorfia muscular e da associação prospectiva entre suplementos e uso posterior de esteroides (Project EAT), que a AAP recomenda rastrear ativamente.

Observações críticas
  1. Na consulta do adolescente: perguntar sistematicamente sobre suplementos, pré-treinos e imagem corporal; uso de whey/creatina associa-se a maior sintomatologia de dismorfia muscular e a risco 2–5× de uso futuro de esteroides.
  2. Atleta adolescente: 1,2–1,8 g/kg/dia de proteína é atingível com alimentos (ovo, leite, carnes, leguminosas); whey só quando dietista identifica déficit real, com produto certificado (Informed Sport/NSF).
  3. Creatina em pós-púbere que insiste: se, apesar da orientação, o adolescente ≥ 16 anos em esporte competitivo optar por usar, reduzir dano — 3 g/dia sem "carga", produto certificado, hidratação, sem outros suplementos, e função renal basal; a posição da SBP e da AAP continua sendo "não indicar".
  4. Eventos adversos reportados por pediatras (Canadá, 2026): whey em 40% e pré-treino em 29% dos casos, com acometimento renal em 31% — notificar à ANVISA (VigiMed).
  5. Regulação: a ANVISA já restringe creatina a ≥ 19 anos; falta fiscalização de "gomas" e produtos com apelo infantil e restrição de venda a menores, como a lei de Nova York.

5.Fontes

  • SBP. Uso de suplementos proteicos de whey protein e creatina em crianças e adolescentes: implicações clínicas e nutricionais. Nota de Alerta nº 42, Departamento de Nutrologia, 05/05/2026. sbp.com.br
  • LaBotz M, Griesemer BA; AAP Council on Sports Medicine and Fitness. Use of performance-enhancing substances. Pediatrics 2016;138:e20161300.
  • HealthyChildren.org (AAP). Performance-enhancing substances: what parents need to know (2024).
  • British Dietetic Association. Sport and exercise nutrition (2026). UK Anti-Doping. Supplements Hub.
  • Comité de Nutrición AEP. Recomendaciones nutricionales para el niño deportista. An Pediatr (Barc) 2014;81:125.e1–6. Iglesias-López MT et al. An Pediatr 2023.
  • SINU. LARN 2014 — proteine. Ministero della Salute. Altri nutrienti e altre sostanze ad effetto nutritivo o fisiologico.
  • Harvard T.H. Chan School of Public Health. The Nutrition Source — Workout supplements (2024). STRIPED. Restricting sale of weight-loss and muscle-building supplements to minors (2024).
  • Kreider RB et al. ISSN position stand: safety and efficacy of creatine supplementation. J Int Soc Sports Nutr 2017;14:18. Jagim AR et al. Safety of creatine supplementation in active adolescents. Front Nutr 2018;5:115.
  • Maughan RJ et al. IOC consensus statement: dietary supplements and the high-performance athlete. Br J Sports Med 2018;52:439–55.
  • Ganson KT et al. Muscle-building supplement use and muscle dysmorphia symptomatology. PLOS Ment Health 2025. Ganson KT et al. Adverse events from muscle-building supplements in pediatric patients. Acad Pediatr 2026.
  • ANVISA. IN 28/2018 (suplementos alimentares); notícia de 25/06/2026 sobre suspensão de lotes de creatina.