Gravidade em semáforo (🟢 leve · 🟡 moderada · 🔴 grave), conduta ambulatorial e critérios para encaminhar ao especialista, ao pronto-socorro ou internar, com a comparação entre SBP/Ministério da Saúde e as referências internacionais (convergências e divergências). 📄 Baixar em PDF
Distúrbio hidroeletrolítico é quase sempre complicação de gastroenterite, sepse, cetoacidose, lesão renal, tubulopatia, insuficiência adrenal, SIADH ou soro inadequado. A desidratação grave recebe o Plano C (SBP/MS 2023): SF 0,9% ou Ringer lactato 30 mL/kg e depois 70 mL/kg; no choque, 20 mL/kg em 5–20 min, até 60 mL/kg. Na hiponatremia com convulsão ou rebaixamento, salina 3% 2 mL/kg IV em 10–15 min, repetida até 3 vezes conforme os sintomas (NICE/SEUP; máx. 100 mL por bolus — NICE NG29), sem esperar exame, e depois aumento do sódio ≤ 10 mEq/L em 24 h. A hipernatremia se corrige devagar: queda ≤ 0,5 mEq/L/h e 10–12 mEq/L em 24 h. Hipercalemia > 6 mEq/L ou com ECG alterado pede gluconato de cálcio 10% 0,6 mL/kg e monitor; hipoglicemia pede glicose IV 0,5–1 g/kg a partir de 1 mês. 🟢 Desidratação leve, distúrbio discreto com causa clara e criança que bebe: casa (Plano A) e retorno. 🟡 Plano B, distúrbio moderado assintomático: observação e reavaliação em 24–48 h. 🔴 Desidratação grave, sintomas neurológicos, alteração no ECG, acidose grave ou causa não esclarecida: pronto-socorro/hospital, com acesso, glicemia e oxigênio para SpO2 ≥ 94%.
1.O que é e como se apresenta
Referência (conforme o laboratório): sódio 135–145 mEq/L; potássio 3,5–5,0 mEq/L (até 5,5 em lactentes); cálcio iônico 1,1–1,3 mmol/L; bicarbonato 22–26 mEq/L; ânion gap 8–12 mEq/L.
| Distúrbio | Definição | Causas frequentes | Sinais que preocupam |
|---|---|---|---|
| Hiponatremia | Na < 135; grave < 125 mEq/L | Perdas repostas com água ou chá, soro hipotônico, SIADH, insuficiência adrenal, fórmula diluída | Cefaleia, vômitos, irritabilidade, sonolência, convulsão |
| Hipernatremia | Na > 145; moderada ≥ 150; grave ≥ 170 mEq/L (RCH) | Diarreia com pouca água, fórmula concentrada, aleitamento ineficaz, diabetes insípido | Pele "pastosa", choro agudo, irritabilidade, convulsão |
| Hipocalemia | K < 3,5; grave < 2,5 mEq/L (RCH 2024) | Vômitos, diarreia, diuréticos, salbutamol, insulina, tubulopatias | Fraqueza, íleo, paralisia, arritmia, onda U |
| Hipercalemia | Leve 5,5–6,0; moderada 6,1–7,0; grave > 7,0 mEq/L (RCH 2024) | Lesão renal, amostra hemolisada, rabdomiólise, lise tumoral, HAC, IECA/BRA | T apiculada, QRS largo, bradicardia, arritmia |
| Hipocalcemia | Cálcio iônico < 1,1 mmol/L | Deficiência de vitamina D, hipoparatireoidismo, hipomagnesemia, sepse | Tetania, laringoespasmo, convulsão, QT longo |
| Acidose metabólica | pH < 7,35 com HCO3 baixo | Diarreia, cetoacidose, choque, intoxicação, lesão renal | Taquipneia (Kussmaul), má perfusão, sonolência |
Hiponatremia aguda é emergência neurológica (edema cerebral; pode haver convulsão com Na 125–130 mEq/L se a queda for rápida). Corrigir rápido a hiponatremia crônica causa desmielinização osmótica; corrigir rápido a hipernatremia, edema cerebral.
2.Classificação de gravidade
| Gravidade | Critérios clínicos | Conduta |
|---|---|---|
| 🟢 Leve | Desidratação leve (Plano A); Na 130–134 ou 146–149, K 3,0–3,4 ou 5,5–6,0 mEq/L com ECG normal, assintomático, causa clara e reversível (gastroenterite, diurético), aceitando via oral | Casa: SRO conforme o Plano A, alimentação habitual, ajuste da causa; retirar o fármaco implicado; repetir exame se indicado; retorno programado |
| 🟡 Moderada | Plano B; Na 125–129 ou 150–159 mEq/L assintomático; K 2,5–2,9 sem sintomas e com ECG normal; acidose com HCO3 10–15 mEq/L e boa perfusão; hipoglicemia que corrige com via oral | Observação no consultório ou no PS: SRO 50–100 mL/kg em 4–6 h, exames, reavaliação em 24–48 h; PS se não melhorar ou se não houver como reavaliar |
| 🔴 Grave | Desidratação grave (Plano C) ou choque; Na < 125 ou ≥ 160 mEq/L, ou qualquer sódio alterado com cefaleia intensa, vômitos repetidos, sonolência ou convulsão; K < 2,5 ou > 6 mEq/L, ou qualquer alteração de potássio com ECG alterado, fraqueza ou paralisia; tetania, laringoespasmo; pH < 7,2 ou HCO3 < 10 mEq/L, Kussmaul; hipoglicemia com alteração da consciência; oligúria | Pronto-socorro/hospital, com estabilização antes do transporte (ver "Como encaminhar") |
Fatores de risco que elevam a gravidade:
- Lactente pequeno, desnutrição grave, doença neurológica que limita ingestão ou sede.
- Doença renal, cardiopatia, insuficiência adrenal, diabetes insípido, tubulopatia, fibrose cística.
- Diuréticos, IECA/BRA, desmopressina; soro hipotônico com risco de SIADH (pneumonia, meningite, pós-operatório).
- Instalação em < 48 h ou sem causa clara.
3.Diagnóstico no consultório
Clínico: grau de desidratação (Planos A/B/C), peso comparado ao recente, diurese, PA, perfusão e exame neurológico. Perguntar o que a criança bebeu (água, chá, fórmula preparada como?) e quais medicamentos usa.
Quando pedir exames: hidratação venosa, desidratação grave ou que não melhora, alteração neurológica, suspeita de hipernatremia, vômitos sem diarreia, doença de base ou evolução atípica.
- Glicemia capilar na hora em toda criança sonolenta, convulsionando ou em jejum prolongado.
- Sódio, potássio, cloro, ureia, creatinina, gasometria venosa (ânion gap), cálcio iônico, magnésio e fósforo; ECG se potássio ou cálcio alterados.
- Osmolalidade e sódio urinários (SIADH, perda de sal, diabetes insípido); cetonemia (cetoacidose × cetose de jejum).
Acidose metabólica — leitura pelo ânion gap (AG = Na − [Cl + HCO3]; normal 8–12 mEq/L), em coerência com o documento Tubulopatias e acidose tubular renal:
- AG aumentado: cetoacidose, cetose de jejum, acidose lática (choque, sepse), intoxicações (salicilato, metanol, etilenoglicol, ferro), doença renal, erro inato do metabolismo.
- AG normal (hiperclorêmica): diarreia (a mais comum), excesso de SF 0,9%, acidose tubular renal; ânion gap urinário negativo na diarreia.
- Compensação: pCO2 esperada ≈ 1,5 × HCO3 + 8 (± 2) (Winter); acima disso, acidose respiratória associada.
Diagnóstico diferencial que não pode passar: cetoacidose diabética (glicemia na hora), insuficiência adrenal e HAC perdedora de sal (hiponatremia com hipercalemia, hipoglicemia, hiperpigmentação, genitália atípica), meningite e encefalite (SIADH), estenose de piloro (alcalose hipoclorêmica hipocalêmica), intoxicação, maus-tratos (desidratação hipernatrêmica inexplicada, intoxicação por água ou sal) e pseudo-hipercalemia (amostra hemolisada ou de punção digital).
4.Tratamento e seguimento
O pediatra reconhece, trata o que ameaça a vida e transfere; correções planejadas e infusões concentradas são do hospital.
1. Desidratação grave — Plano C (SBP, Guia Prático de Diarreia Aguda Infecciosa 2023, com o esquema do MS 2023; o mesmo do documento Diarreia aguda e desidratação do site):
- SF 0,9% ou Ringer lactato: < 1 ano 30 mL/kg em 1 h e depois 70 mL/kg em 5 h; ≥ 1 ano 30 mL/kg em 30 min e depois 70 mL/kg em 2 h 30 min.
- Choque: 20 mL/kg em 5–20 min, repetindo até 60 mL/kg conforme a perfusão.
- RN e < 5 anos com cardiopatia grave: 10 mL/kg (SBP/MS 2023). Desnutrido grave: SF 0,9% 10 mL/kg, reavaliando a cada hora (SBP 2023).
- Reavaliar a cada etapa; SRO assim que aceitar.
2. Hidratação venosa de manutenção.
- Volume (Holliday-Segar): 100 mL/kg/dia até 10 kg; 1.000 mL + 50 mL/kg acima de 10 kg; 1.500 mL + 20 mL/kg acima de 20 kg (máx. cerca de 2.000–2.500 mL/dia) (SBP/MS 2023; NICE NG29).
- Após o Plano C, o site segue a SBP/MS 2023: manutenção com SG 5% + SF 0,9% na proporção 4:1, mais reposição das perdas com SG 5% + SF 0,9% 1:1 (início com 50 mL/kg/dia, reavaliado conforme as perdas) e KCl 10% 2 mL para cada 100 mL da manutenção, com diurese presente.
- Nas demais crianças internadas em soro de manutenção (pneumonia, bronquiolite, meningite, pós-operatório), SBP e MS não têm posição localizada; o site segue a AAP (2018): solução isotônica com KCl e glicose, que reduz significativamente a hiponatremia (evidência A; 28 dias a 18 anos). NICE e SEUP concordam (Na 131–154 mEq/L). A AAP exclui doença neurocirúrgica, cardiopatia, hepatopatia, câncer, disfunção renal, diabetes insípido, diarreia volumosa e grandes queimados.
- Risco de sobrecarga ou SIADH: 50–80% da manutenção (NICE NG29). Eletrólitos a cada 24 h de soro (SEUP).
3. Hiponatremia. SBP e MS não têm documento localizado; o site segue o seu protocolo de urgência (Principais Causas de Urgência em Pediatria), coerente com SEUP e NICE.
- Sintomática grave (convulsão, rebaixamento, vômitos e cefaleia intensos): salina 3% 2 mL/kg IV em 10–15 min, sem esperar o exame se o quadro for sugestivo; máx. 100 mL por bolus (NICE NG29). Repetir até 3 vezes se persistirem os sintomas (NICE/SEUP); parar quando cessarem. Cada 2 mL/kg eleva o Na em ≈ 2 mEq/L (SEUP).
- Preparo (SEUP 2018): SF 0,9% 100 mL + NaCl 20% 12 mL.
- Limite de correção: ≤ 10 mEq/L em 24 h (site; SEUP: ≤ 5 mEq/L na 1ª hora e 6–8 mEq/L/dia na crônica; RCH: 6–8, máx. 8 mEq/L/dia; NICE: ≤ 12 mEq/L/dia).
- Assintomática: tratar a causa; hipovolemia com soro isotônico; SIADH com restrição hídrica; nunca soro hipotônico. A convulsão hiponatrêmica responde mal ao anticonvulsivante.
4. Hipernatremia (padrão do site, documento Diabetes insípido e poliúria; NICE NG29; SEUP):
- Choque primeiro: SF 0,9% 20 mL/kg.
- Depois, SF 0,9% com glicose (SEUP; RCH), déficit em 48 h (48–72 h se grave ou crônica); sódio a cada 2–4 h.
- Queda ≤ 0,5 mEq/L/h e 10–12 mEq/L em 24 h; Na ≥ 170 ou crônica: ≤ 8 mEq/L/dia.
- Convulsão durante a correção = edema cerebral: salina 3% 2,5–5 mL/kg em 10–15 min (dose do edema cerebral em Cetoacidose diabética; ISPAD) e desacelerar a correção.
5. Potássio e demais doses de emergência
| Medicamento | Dose | Intervalo | Duração | Observação e referência |
|---|---|---|---|---|
| Salina 3% (hiponatremia sintomática) | 2 mL/kg IV em 10–15 min (máx. 100 mL/bolus — NICE NG29) | Repetir se sintomas, até 3 vezes | Até cessarem os sintomas | NICE (2,7%) e SEUP (3%); padrão do site |
| KCl oral (hipocalemia leve ou moderada sem ECG alterado) | 1–2 mEq/kg/dose (máx. 20 mEq/dose); até 5 mEq/kg/dia (máx. 50 mEq/dia) | Conforme o K | Até normalizar | RCH 2024; SEUP: 2–4 mEq/kg/dia; via oral preferida |
| KCl IV (K < 3,0, sem via oral ou ECG alterado) | 0,2 mEq/kg/h por 3 h (máx. 10 mEq/h) em enfermaria | K 1 h após | Conforme o K | RCH 2024; periférica até 40 mEq/L; mais concentrado só em acesso central/UTI; nunca em bolus; monitor; corrigir o magnésio |
| Gluconato de cálcio 10% (hipercalemia com ECG alterado; PCR) | 0,6 mL/kg = 60 mg/kg IV (máx. 20 mL = 2 g) em 5–10 min | Repetir se o ECG seguir alterado | — | PALS do site; diluído, monitor; nunca IM; não misturar com bicarbonato |
| Gluconato de cálcio 10% (hipocalcemia sintomática: tetania, convulsão) | 1–2 mL/kg IV (máx. 20 mL), lento, em 5–15 min | Repetir se os sintomas persistirem | Depois, infusão contínua | SBP, DC nº 181/2024 (10–20 mg/kg de cálcio elementar); igual a Cálcio, vitamina D e raquitismo; diluído, monitor; nunca IM |
| Salbutamol inalatório (hipercalemia) | 0,15 mg/kg nebulizado | A cada 1–2 h | Conforme o K | Doc. Lesão renal aguda (AEP 2022) |
| Glicose + insulina regular (hipercalemia) | SG 10% 5 mL/kg + insulina 0,1 U/kg IV (máx. 10 U) | Depois perfusão | Conforme o K | Doc. Lesão renal aguda (RCH 2024); hospitalar |
| Sulfato de magnésio (hipomagnesemia, hipocalcemia ou hipocalemia refratárias) | 25–50 mg/kg IV (máx. 2 g) em 20 min | Conforme o Mg | — | Padrão do site; SEUP: a cada 4–6 h |
| Glicose IV (hipoglicemia, a partir de 1 mês) | 0,5–1 g/kg = SG 25% 2–4 mL/kg ou SG 10% 5–10 mL/kg | Glicemia em 10–15 min | Depois SG 10% contínuo | MS, Protocolo SAMU 192; RN: SG 10% 2 mL/kg |
| Bicarbonato de sódio 8,4% | 1 mEq/kg IV lento, diluído | Nova gasometria | Só indicações abaixo | PALS do site; SEUP: 0,5–1 mEq/kg em 1 h, alvo pH 7,2 |
Hipercalemia (documento Lesão renal aguda): não esperar nova dosagem se o ECG estiver alterado; cálcio protege o coração, salbutamol e glicose com insulina deslocam o potássio; furosemida 0,5–1 mg/kg só com diurese e sem hipovolemia; suspender potássio e fármacos que o elevam; refratária = diálise.
Hipoglicemia (documento Hipoglicemia na criança): < 60 mg/dL (< 70 no diabetes). Consciente: glicose oral 0,3 g/kg; sem via oral: glucagon IM 0,5 mg (< 25 kg) ou 1 mg (≥ 25 kg) ou glicose IV (tabela); amostra crítica se não atrasar.
Acidose metabólica: tratar a causa — volume na desidratação e no choque, insulina na cetoacidose, antídoto na intoxicação. Bicarbonato não é rotina:
- Não usar na cetoacidose diabética, salvo pH < 6,9 com disfunção cardíaca ou hipercalemia com risco de vida (documento Cetoacidose diabética; ISPAD).
- Considerar na diarreia com pH < 7,15–7,20 ou HCO3 < 10–12 mEq/L, na hipercalemia com acidose, nos tricíclicos e na acidose lática com pH < 7,1 apesar do volume (SEUP; PALS do site). Riscos: hipocalemia, hipocalcemia, hipernatremia, sobrecarga.
O que não usar: soro hipotônico em bolus ou com hiponatremia ou risco de SIADH; água, chá ou suco para reidratar; potássio IV em bolus ou sem diurese; bicarbonato "para corrigir a gasometria"; ibuprofeno na criança desidratada (padrão do site).
Seguimento: rever a causa (fórmula, líquidos, medicamentos), repetir eletrólitos e investigar com o especialista o distúrbio recorrente ou sem causa.
5.Quando encaminhar ao pronto-socorro ou internar
- Todos os critérios 🔴 da tabela de gravidade.
- Também: falha do Plano B; vômitos incoercíveis; distúrbio sem causa evidente; doença renal, cardíaca, adrenal ou diabetes insípido; impossibilidade de reavaliar em 24–48 h.
Como encaminhar
- ABC; oxigênio para manter SpO2 ≥ 94%; monitor se houver.
- Glicemia capilar e correção da hipoglicemia.
- Acesso venoso (intraósseo no choque) e Plano C.
- Convulsão: protocolo Estado de Mal Convulsivo (crise ≥ 5 min); se houver suspeita de hiponatremia, salina 3% 2 mL/kg em 10–15 min (máx. 100 mL) junto com o benzodiazepínico.
- Hipercalemia com ECG alterado e acesso disponível: gluconato de cálcio 10% 0,6 mL/kg em 5–10 min e salbutamol inalatório, sem atrasar a transferência.
- Sem insulina, KCl IV concentrado ou bicarbonato no consultório.
- Contato médico a médico; relatório com peso, fluidos (volume e horário), glicemias, exames e medicamentos. Transporte com equipe (SAMU 192).
6.Orientações de retorno e sinais de alerta para a família
- "Reidrate com o soro de reidratação oral, aos poucos e com frequência; água, chá, refrigerante e suco não repõem o sal perdido."
- "Prepare a fórmula exatamente como indicado." Sem antidiarreicos nem ibuprofeno.
- Nos casos 🟡, reavaliação em 24–48 h.
- Procure o pronto-socorro imediatamente se: sonolência, convulsão, irritabilidade intensa, dor de cabeça forte com vômitos, vômitos que não param, pouca ou nenhuma urina, olhos muito fundos, mãos e pés frios, respiração rápida e funda, fraqueza, câimbras ou formigamento.
7.Comparação com as referências
| Item | SBP | Ministério da Saúde | AAP | NICE | AEP | Johns Hopkins | Harvard | Oxford / Cambridge |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Desidratação grave | Plano C: 30 + 70 mL/kg; choque 20 mL/kg | Igual (Manejo do paciente com diarreia 2023) | Sem diretriz própria localizada | Bolus 10 mL/kg em < 10 min | Rehidratação rápida 20 mL/kg/h isotônica (SEUP 2024) | Sem posição específica localizada | Sem posição específica localizada | Segue o NICE |
| Soro de manutenção | 4:1 após Plano C (GPA 2023) | 4:1 (2023) | Isotônico com KCl e glicose (2018) | Isotônico, Na 131–154 | Isotônico com glicose 5% e K | Sem posição específica localizada | Sem posição específica localizada | Segue o NICE |
| Hiponatremia sintomática | Sem posição localizada | Sem posição localizada | Sem posição localizada | 2,7% 2 mL/kg (máx. 100 mL), até 3 bolus | 3% 2 mL/kg (máx. 100 mL) em 10–15 min | Sem posição específica localizada | Sem posição específica localizada | Segue o NICE |
| Limite de correção do Na | — | — | — | Hipo e hiper ≤ 12 mEq/L/24 h | Hipo ≤ 10 (crônica 6–8); hiper ≤ 12 e < 0,5/h | — | — | Segue o NICE |
| Bicarbonato | Não na cetoacidose (DC 37) | — | — | — | Diarreia se pH < 7,15–7,20; AG alto só pH extremo | — | — | Segue o NICE |
Leitura: as referências convergem no Plano C com cristaloide isotônico, na salina hipertônica em bolus para a hiponatremia sintomática, na correção lenta do sódio e no uso restrito do bicarbonato. A principal divergência é o soro de manutenção: a SBP e o MS (2023) mantêm, após o Plano C da diarreia, a solução 4:1 (cerca de 31 mEq/L de sódio, hipotônica), enquanto AAP 2018, NICE e SEUP recomendam solução isotônica, que reduz a hiponatremia adquirida no hospital. Diferenças menores: salina 2,7% no Reino Unido e 3% na Espanha e no Brasil; infusão em 10–15 min (NICE, SEUP; adotada pelo site); teto diário de correção de 8 (RCH), 10 (SEUP, site) ou 12 mEq/L (NICE). Posição adotada pelo site: SBP/MS no Plano C e na sua fase de manutenção; na falta de posição da SBP e do MS, AAP 2018 (isotônico) para as demais crianças em soro de manutenção, e NICE/SEUP (2 mL/kg em 10–15 min, até 3 vezes; máx. 100 mL — NICE NG29) para a hiponatremia sintomática.
- Toda criança sonolenta, convulsionando ou em jejum prolongado: glicemia capilar na hora.
- Convulsão com suspeita de hiponatremia (gastroenterite com água ou chá, SIADH, soro hipotônico): salina 3% 2 mL/kg em 10–15 min (máx. 100 mL), repetida até 3 vezes conforme os sintomas, sem esperar o exame.
- Sódio, para cima ou para baixo, nunca mais que 10–12 mEq/L em 24 h; hipernatremia: queda ≤ 0,5 mEq/L/h.
- Potássio alterado: ECG antes de tudo; hipercalemia com ECG alterado é gluconato de cálcio 10% 0,6 mL/kg com monitor; potássio IV nunca em bolus.
- Ânion gap normal na diarreia é esperado; alto pede glicemia, cetonas, lactato e pesquisa de intoxicação.
- Bicarbonato não corrige cetoacidose: trate a causa e o volume.
Veja também, nesta Biblioteca: Diarreia aguda e desidratação; Lesão renal aguda; Tubulopatias e acidose tubular renal; Cetoacidose diabética; Hipoglicemia na criança; Diabetes insípido e poliúria; Cálcio, vitamina D e raquitismo; PALS; Protocolo de Estado de Mal Convulsivo; Principais Causas de Urgência em Pediatria.
8.Fontes
- Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Gastroenterologia. Diarreia aguda infecciosa (Guia Prático de Atualização), 2023 — com os quadros do Plano C e da manutenção do Ministério da Saúde (Manejo do paciente com diarreia, 2023). PDF
- American Academy of Pediatrics. Feld LG et al. Clinical Practice Guideline: Maintenance Intravenous Fluids in Children. Pediatrics, 2018;142(6):e20183083. PubMed
- NICE. NG29 — Intravenous fluid therapy in children and young people in hospital (2015, atualizada em 2020). nice.org.uk
- SEUP/AEP, Grupo de Trabalho de Hidratação e Transtornos Eletrolíticos. Manual para el diagnóstico y tratamiento de la deshidratación y de los trastornos hidroelectrolíticos en Urgencias de Pediatría, 2018. PDF
- SEUP/AEP. García Herrero MA et al. Deshidratación en contexto de gastroenteritis aguda. Protocolos diagnósticos y terapéuticos en Urgencias de Pediatría, 4ª ed., 2024. PDF
- Royal Children's Hospital Melbourne. Clinical Practice Guidelines: Hypokalaemia (2024), Hyponatraemia (2023), Hypernatraemia (2020)