Temas atualizados em Neonatologia · Sala de parto

Coleta de sangue do cordão para exames do recém-nascido

Manual de Orientação SBP nº 43 (05/2026) comparado com o relatório clínico da AAP (2025) e sua correção (2026), a recomendação SENeo (2022), NICE/BASHH, Itália, Harvard e Johns Hopkins, com a ressalva do Guia Prático SBP nº 226 sobre sífilis.

Resumo com convergências e divergências entre as atualizações de 2025–2026 em Neonatologia e as posições da Sociedade Brasileira de Pediatria, AAP, NICE, AEP/SENeo, Sociedade Italiana de Neonatologia, Harvard (Boston Children's) e Johns Hopkins. 📄 Baixar em PDF

Em resumo

Em 2025 o Comitê de Feto e Recém-Nascido da AAP publicou o relatório clínico Postnatal Cord Blood Sampling: o sangue que permanece no cordão e na placenta após a separação placentária é do RN e pode substituir a punção do bebê para hemograma, hemocultura, tipagem e outros exames, com benefícios citados de pressão arterial mais estável e menor uso de vasopressores. Um resumo em J Perinatol (2026) o descreve como fonte preferencial dos exames iniciais na UTI neonatal, viável mesmo após clampeamento tardio. Em 2026 a Pediatrics publicou uma correção ao relatório, sem resumo. No Brasil, o Manual de Orientação SBP nº 43 (12/05/2026), sobre hemocomponentes, inclui "exames com sangue de cordão" entre as medidas de prevenção da anemia do prematuro, grau 2B, para incorporar — o mesmo grau da SENeo (2022), que ele reproduz. Há concordância entre SBP, SENeo e AAP quanto ao princípio; a SBP, porém, não especifica quais exames, a técnica nem o uso na admissão do RN de muito baixo peso. Uma ressalva importante vem da própria SBP: o Guia Prático nº 226 (sífilis congênita) determina o teste não treponêmico pareado mãe-RN em sangue periférico, não de cordão, em linha com a BASHH (2024) e a prática espanhola. Para Oropouche, SBP e Ministério da Saúde incluem o sangue de cordão entre as amostras, e o CDC não o recomenda. NICE, sociedades italianas, Harvard e Johns Hopkins: sem documento específico localizado.

1.O que mudou em 2025–2026

Data Instituição Documento O que mudou
05/2025 AAP (COFN) Postnatal Cord Blood Sampling — Clinical Report (Pediatrics 2025;155(6)) Sangue do cordão após separação placentária é do RN; usos em hemograma, hemocultura, tipagem e outros; menos punções, PA mais estável, menos vasopressores
11/09/2025 SBP Guia Prático de Atualização nº 226 — Sífilis congênita Teste não treponêmico pareado mãe-RN em sangue periférico, não de cordão
18/09/2025 SBP Nota de Alerta nº 228 — Oropouche RN de mãe infectada: RT-qPCR e sorologia em placenta, sangue de cordão e soro do RN e da mãe
2026 J Perinatol (Ohls, Bahr, Kaufman, Christensen) Resumo e inquérito em 10 UTINs nível III de Utah Cordão como fonte preferencial dos exames iniciais na UTIN, viável mesmo após clampeamento tardio
2026 AAP Correction to Postnatal Cord Blood Sampling (Pediatrics 2026;157(5)) Correção publicada sem resumo; o teor não foi analisado aqui
12/05/2026 SBP Manual de Orientação nº 43 — Hemocomponentes e hemoderivados em Neonatologia Exames com sangue de cordão grau 2B, incorporar
26/08/2026 Cochrane Nissimov S et al., CD016077 Revisão sobre estratégias para reduzir coletas em pré-termos, incluindo o cordão

2.Posição brasileira (SBP)

Documento principal: Manual de Orientação nº 43, 12/05/2026, 16 p. — Hemocomponentes e hemoderivados: indicações em Neonatologia. DC de Neonatologia e DC de Hematologia e Hemoterapia (relatoras Lilian Sadeck, Eveline Castro, Leila Pereira, Cecília Lorea, Clarissa Dametto). A recomendação sobre o cordão aparece no bloco de prevenção da anemia, com a tabela de graus da SENeo (Boix 2022). Documentos relacionados: Guia Prático nº 226 (sífilis, 11/09/2025), Diretrizes PRN-SBP 2026 (12/06/2026) e Diretriz nº 193 (sepse, mar/2025).

Tema Conteúdo
Prevenção da anemia (MO nº 43) Clampeamento tardio 1A (incorporar); exames com sangue de cordão 2B (incorporar); reduzir perdas 1B; eritropoetina 1A, mas "mais estudos"
Por que poupar sangue Estratégia transfusional restritiva (limiares de Hb 7–11 g/dL por idade pós-natal e gravidade); dose 15 mL/kg; hemácias irradiadas se <1.200 g ou <28 semanas
Clampeamento (PRN-SBP 2026) ≥60 s no RN com boa vitalidade; ordenha considerada a partir de 28 semanas no RN sem boa vitalidade
Hemocultura (Diretriz nº 193) ≥1 mL, 2 amostras
Sífilis (GPA nº 226) Teste não treponêmico pareado mãe-RN em sangue periférico — não usar sangue de cordão; título ≥2 diluições acima do materno = sífilis congênita; título igual ou menor não exclui
Oropouche (Nota nº 228) RT-qPCR e sorologia em placenta, sangue de cordão e soro do RN e da mãe; LCR se alteração neurológica ou malformação (mesma lista da NT MS nº 135/2024)

Não aborda: quais exames colher no cordão (hemograma, hemocultura, tipagem, bioquímica); técnica, volume e momento da coleta após a dequitação; uso na admissão do RN de muito baixo peso; compatibilização explícita com o clampeamento tardio; limitações para sorologias infecciosas além da sífilis; medidas de patient blood management como micrométodos.

3.Posição das referências internacionais

Referência Documento e ano Posição resumida
EUA — AAP Kaufman DA, Lucke AM, Cummings JJ; COFN — Postnatal Cord Blood Sampling, Clinical Report (Pediatrics 2025;155(6):e2025071811); Correção (Pediatrics 2026;157(5):e2026076151) Sangue do cordão após separação placentária pertence ao RN; usos: hemograma, hemocultura, tipagem, entre outros; benefícios: PA mais estável e menos vasopressores. Correção de 2026 sem resumo
EUA — J Perinatol Ohls RK, Bahr TM, Kaufman DA, Christensen RD — J Perinatol 2026;46(5):886–887 Cordão como fonte preferencial na UTIN: hemograma com diferencial, hemocultura (inóculo maior melhora o resultado), tipagem e prova cruzada, genética, coagulação, bioquímica e metabólicos; indolor e viável após clampeamento tardio
EUA — CDC (Oropouche) CDC — Clinical Considerations for Infants (2025) RT-PCR no soro do RN o mais perto possível do nascimento; sangue de cordão não recomendado (falso-positivos e falso-negativos)
Reino Unido — NICE / BAPM / BASHH BASHH — Syphilis in pregnancy and children (2024) NICE NG195 e BAPM: sem documento específico localizado sobre exames ou hemocultura de cordão. BASHH: sorologia pareada mãe-RN não em cordão
Espanha — SENeo/AEP Boix H et al. — Recomendaciones para la transfusión de hemoderivados en neonatología (An Pediatr 2022); Protocolo Vall d'Hebron — Sífilis congénita (2024) Exames com sangue de cordão ou placenta 2B, recomendados na prática rotineira (reduzem transfusões na 1ª semana); clampeamento tardio 1A. Na sífilis, protocolo institucional usa RPR em soro do RN, não cordão
Itália — SIN / SIMTI — Sem documento específico localizado
Harvard — Boston Children's — Sem documento específico localizado
Johns Hopkins — Sem documento específico localizado
Cochrane Nissimov S et al., CD016077 (26/08/2026) Revisão sobre estratégias para minimizar coletas em pré-termos, incluindo o uso do cordão

4.Concordâncias e discordâncias

Tema SBP AAP NICE/UK AEP/SENeo Itália Harvard J. Hopkins Leitura
Usar o cordão nos exames iniciais Incorporar (2B) Fonte preferencial — 2B, rotina — — — Concordância SBP–SENeo–AAP
Lista de exames Não detalha Hemograma, hemocultura, tipagem, coagulação, bioquímica, genética — — — — — Lacuna SBP
Hemocultura de cordão Não detalha Sim (inóculo maior) Não localizado — — — — Lacuna SBP
Objetivo declarado Prevenir anemia e perdas Menos punções, PA mais estável — Menos transfusões na 1ª semana — — — Convergente
Clampeamento tardio ≥60 s (1A) Coleta viável após clampeamento tardio — 1A — — — Compatíveis
Sífilis (teste não treponêmico) Periférico, não cordão — Não cordão (BASHH) Soro do RN (Vall d'Hebron) — — — Concordância
Oropouche Cordão + soro do RN Cordão não (CDC) — — — — — Divergência

5.Síntese

No princípio há acordo: o sangue que fica no cordão e na placenta após a separação placentária é sangue do RN, e usá-lo nos exames da admissão evita a primeira grande espoliação do prematuro. A SBP, ao adotar no Manual nº 43 o grau 2B da SENeo, alinha-se à Espanha e ao relatório da AAP de 2025. A diferença é de profundidade: a AAP e o resumo de Ohls e colaboradores dizem quais exames (hemograma, hemocultura com inóculo maior, tipagem e prova cruzada, coagulação, bioquímica, genética) e afirmam que a coleta é viável mesmo após clampeamento tardio; a SBP trata o tema em uma linha de tabela, dentro de um manual transfusional, sem técnica, volume ou indicação. A correção da AAP de 2026 não traz resumo, e seu teor deve ser conferido antes de redigir protocolos.

O ponto de atenção prática é que "sangue de cordão" não é equivalente a sangue do RN para diagnóstico de infecção congênita. A SBP é explícita na sífilis: o teste não treponêmico deve ser pareado com o materno em sangue periférico, não no cordão — posição idêntica à da BASHH e à do protocolo espanhol de Vall d'Hebron. Na Oropouche a situação se inverte: SBP e Ministério da Saúde incluem o cordão entre as amostras, e o CDC o desaconselha por falso-positivos e falso-negativos, priorizando o soro do RN.

Entre as demais referências — NICE, BAPM, sociedades italianas, Harvard e Johns Hopkins — não localizamos documento específico. A revisão Cochrane de 2026 sobre estratégias para reduzir coletas em pré-termos deve orientar próximas revisões do tema.

Observações críticas
  1. Protocolar a coleta do cordão na admissão do prematuro — hemograma, hemocultura e tipagem — com amostra obtida após a separação placentária, sem atrasar o clampeamento ≥60 s.
  2. Hemocultura: manter ≥1 mL (Diretriz SBP nº 193 e AAP); o cordão facilita inóculo maior, mas a técnica asséptica precisa estar padronizada.
  3. Sífilis: nunca usar sangue de cordão para o teste não treponêmico do RN — colher sangue periférico, pareado com o materno.
  4. Oropouche: seguir a lista do MS e da SBP, mas colher sempre o soro do RN e interpretar com cautela o resultado do cordão, que o CDC considera pouco confiável.
  5. Registro: identificar no pedido e no laudo que a amostra é de cordão, para interpretação correta de hemograma, tipagem e culturas.
  6. Correção da AAP (2026): conferir o texto corrigido antes de incorporar detalhes do relatório ao protocolo institucional.

6.Fontes

  • SBP. Hemocomponentes e hemoderivados: indicações em Neonatologia. Manual de Orientação nº 43, DC de Neonatologia e DC de Hematologia e Hemoterapia, 12/05/2026.
  • SBP. Sífilis congênita. Guia Prático de Atualização nº 226, DC de Neonatologia, 11/09/2025.
  • SBP. Oropouche. Nota de Alerta nº 228, DC de Infectologia, 18/09/2025. Ministério da Saúde. Nota Técnica Conjunta nº 135/2024-SVSA/SAPS/SAES/MS, 14/08/2024.
  • SBP/PRN-SBP. Diretrizes 2026 de reanimação neonatal, 12/06/2026. SBP. Diretriz nº 193 (sepse neonatal), mar/2025.
  • Kaufman DA, Lucke AM, Cummings JJ; AAP Committee on Fetus and Newborn. Postnatal cord blood sampling — clinical report. Pediatrics 2025;155(6):e2025071811. Correction. Pediatrics 2026;157(5):e2026076151.
  • Ohls RK, Bahr TM, Kaufman DA, Christensen RD. J Perinatol 2026;46(5):886–887.
  • CDC. Oropouche — Clinical considerations for infants, 2025.
  • Kingston M et al. BASHH UK guidelines for the management of syphilis in pregnancy and children 2024. Int J STD AIDS 2024.
  • Boix H et al. Recomendaciones para la transfusión de hemoderivados en neonatología. An Pediatr 2022.
  • Hospital Universitari Vall d'Hebron. Protocolo de sífilis congénita, v2, nov/2024.
  • Nissimov S et al. Cochrane Database Syst Rev 2026; CD016077.